segunda-feira, 26 de março de 2012

A condenação de um homem bom

      A condenação de um homem bom

                                                                       Anderson Felix

Fui acusado de homicídio. Minha condenação: ser enforcado em praça pública. Não sou um erro da justiça, eu realmente cometi o crime. No momento estou prestes a passar pela queda longa, uma forma um pouco mais rápida de se morrer na forca. Não precisarei sentir a angústia de ter meu pescoço apertado por uma corda que comprimirá minhas artérias até a morte. Na queda longa é feito um cálculo de altura e peso suficiente para quebrar o pescoço. Mas não é sobre a minha morte que quero falar, e sim sobre a minha vida.
O ano era 1852. Eu estava com 31 anos, sem residência ou trabalho fixos e o pouco dinheiro que conseguia, gastava com um prato de sopa e doses de conhaque. Nesse dia específico, consegui dinheiro para alguns copos de cerveja. Sentei-me em frente ao balcão do bar, onde normalmente fico. A sopa de legumes estava quente, o único alimento que ajuda a aquecer o corpo no rigoroso inverno. Já estava no meu quinto copo, sentir o gosto do trigo e da cevada era o que me animava para o resto do dia. Se pudesse, me acabaria nessa vida de tanto beber, no entanto, sempre falta dinheiro para tal luxo. Dois homens de terno executivo e cartola entraram pela porta vai-e-vem do bar. Um deles era bem idoso e usava uma bengala como auxílio. Os bêbados pararam o que estavam fazendo para observá-los. Pode ter certeza, quando pessoas importantes entram em lugares desprezíveis e inóspitos é porque a situação de alguém não está muito boa. Seus passos davam a sensação do giro do tambor numa roleta-russa. Quando pararam ao meu lado entendi que o atingido seria eu.
- Vocês são da polícia? – perguntei olhando para as inúmeras garrafas de uísque atrás do balcão.
- Venha conosco e lhe explicaremos. – disse o sisudo à direita.
- E se eu não for?
- Temos uma proposta irrecusável.
O idoso estava à minha esquerda e se sentia incomodado com o lugar.
- Tudo bem. – disse eu - Primeiro preciso pagar a conta.
- Não se preocupe! Nós pagaremos. – disse o sisudo.
O da bengala me acompanhou para fora do bar enquanto o outro dava um jeito com a conta. O condutor abriu a porta da carruagem. O idoso sentou-se de frente para mim.
- O que é que vai acontecer agora? – perguntei.
- Você terá a melhor noite da sua vida.
Ri da cara dele.
- Desculpa, meu amigo, mas eu gosto de mulher. Embora não tenha uma há muito tempo.
O sisudo sentou-se ao meu lado e me explicou uma parte do que estava para acontecer.
- A partir de hoje e por mais um longo tempo sua vida será diferente da que costuma levar. Não haverá mais contato com a plebe... Pelo menos não como antigamente.
- E o que eu precisarei fazer?
- Nada. Faremos por você. – respondeu o velhote.
- Posso pelo menos saber quem são vocês?
- Amanhã você saberá.
Fui levado a uma enorme mansão. Duas belíssimas mulheres me banharam, fizeram minha barba e... Vou poupar-lhes dos detalhes sórdidos, mas posso dizer que gozei a ponto de explodir. Amanheci nu sobre a cama. As mulheres já não estavam mais, porém, ainda sentia o perfume delas no lençol. O chão do quarto estava sujo de vinho e restos de frutas. Tomei um banho numa luxuosa banheira que eu nem sabia usar direito. Enxuguei-me na toalha de rosto, era a única que havia. Procurei minhas vestimentas pelo quarto, como não as encontrei, resolvi abrir o guarda-roupa. Coincidentemente os trajes me couberam bem, como se estivessem ali apenas para mim. A porta foi aberta por uma senhora que pelo uniforme identifiquei como sendo a empregada do lugar.
- Bom dia, senhor. Os secretários estão esperando na sala. Posso arrumar a cama?
- Claro.
Foi estranho, não havia surpresa em seu olhar, era como se esperasse pela minha presença. Saí do quarto e desci as escadas. Eram os mesmos homens da noite anterior. Estavam sentados nas poltronas em frente à lareira.
- Bom dia!
- Bom dia! Como foi a noite? – perguntou o sisudo.
- Divertida e diferente.
- Sente-se! – disse o idoso apontando para a poltrona ao meu lado.
Sentei-me.
- Meu nome é Júlio. – disse o sisudo – Sou secretário do prefeito. E esse senhor – disse apontando para o idoso – chamasse Ulisses, é o fundador e presidente do partido. Você e o seu irmão já não se veem desde que seus pais morreram, não é mesmo?
- Isso.
- Parece que vocês seguiram caminhos bem opostos; ele virou prefeito e você um alcoólatra, praticamente um mendigo.
- Isso.
- Ele morreu na tarde de ontem.
Ergui as sobrancelhas.
- Como foi que aconteceu? – perguntei.
- Suicídio. Ele bebeu veneno.
- E o que é que eu tenho a ver com isso?
- Bem, vocês são gêmeos. Conhecemos a sua história e sei que você sempre desejou a morte dele pelo o que fez com você. Pois bem, agora ele está morto. Você pode tomar o lugar dele e continuar com o trabalho na prefeitura. Ninguém além de nós três sabe do óbito.
Pelo visto, os dois sabiam o que havia ocorrido comigo no passado. Quando eu estava com 25 anos, meu irmão esfaqueou um homem até a morte em frente a um bar. Como eu costumava frequentar o local, todos acharam que eu era o assassino. Meu irmão poderia ter assumido o crime, no entanto, serviu como testemunha de acusação. Nossos pais já haviam morrido nessa época.
- Me deixe ver se entendi; vocês querem que eu assuma o lugar do meu irmão na prefeitura?
- Não. – disse Ulisses - Queremos que você seja o seu irmão. Você terá todos os luxos. Inclusive essa mansão que era dele, agora será sua. A noite de prazer que você teve, poderá ter novamente quando quiser.
- Eu odiava o meu irmão e não me tocou nem um pouco saber que ele morreu. Só que eu não entendo nada de política.
- Ele também não entendia e morreu sem entender. – disse Júlio - Nós é que faremos tudo. Se mandarmos você assinar, você assina. Se mandarmos você discursar, você discursa. Simples. O que o povo precisa é de uma imagem que traga confiança. Ele tinha essa imagem, veio da plebe. Isso fez com que as pessoas se identificassem. E agora você será isso.
- E por que o vice não assume? – perguntei.
- Ele é de outro partido. – explicou Júlio - Só precisávamos dele para nos trazer votos, mais nada.
- E o corpo do meu irmão?
- A roupa que você estava vestindo será colocada nele. Deixaremos o cadáver hoje de madrugada em uma rua qualquer. Pensarão que você morreu de frio.
No primeiro momento eu não sabia o que responder, depois, pensando melhor, percebi que se não aceitasse o desafio, continuaria a viver da mesma forma, de bar-em-bar. Além do mais, não havia nada a perder que eu já não tivesse perdido.
- Sua esposa chegará de viagem daqui a algumas horas. – disse Júlio.
- Eu não tenho esposa.
Ulisses levou a mão à testa como desprezo à minha falta de inteligência.
- A esposa do seu irmão, agora será sua. – explicou Júlio - O nome dela é Helena. Vocês têm um filho pequeno, chama-se Carlos. Voltaremos à noite. – disse entregando-me um documento. – Essa é a assinatura dele. Treine-a, pois você irá usar e muito.
Não foi difícil reproduzir a assinatura, era quebrada assim como a minha. A esposa e o filho chegaram ao fim da tarde. Eu não fazia a menor ideia de como agir, mas sabendo do coração podre que era meu irmão, provavelmente nem o garoto conseguia ter a atenção que merecia. A esposa era uma bela mulher, que não conseguia realçar nem um sorriso. O garoto talvez tivesse cinco anos ou um pouco mais. Carregava um cavalinho de madeira e tinha o olhar de quem pedia por carinho.
- Como foi a viagem? – perguntei a ela enquanto a empregada fechava a porta. Subiu as escadas sem me responder. Parecia estar chateada com algo.
À noite uma carruagem parou em frente à mansão. Saíram Ulisses e Júlio, que deixou uma pilha de documentos para que eu assinasse.
- Sobre o que são esses papéis? – perguntei.
- Lembre-se, não faça perguntas, apenas assine. – disse Ulisses - Nos veremos amanhã à tarde.
Entraram na carruagem e foram embora. Voltei para a mansão, fiquei na sala tentando analisar os documentos, só que os textos eram longos demais. Se minha função fosse apenas assinar papéis, não haveria motivo para me preocupar. Assinei todos e fui para a cama. A noite anterior havia me deixado exausto, não tinha o hábito de maltratar meu corpo tanto assim, pelo menos não da forma como havia feito. Helena estava sentada de frente à penteadeira lendo um livro de um tal de alguma coisa Tolstói. Parecia não se sentir bem com a minha presença. Fechou o livro e despiu-se. Quando se inclinou para apagar as velas, vi pequenos hematomas em seus braços. Ela deitou-se ao meu lado.
- Você deveria procurar um médico para dar um jeito nesses machucados. – falei.
- Você é desprezível! Faça logo o que tiver de fazer, pois estou com sono.
Senti-me um infeliz pelo que eu podia representar a ela. No dia seguinte, enquanto tomava café, vi o corpo do meu irmão no jornal que eu estava lendo e uma nota de lamentação assinada por mim logo abaixo da imagem do corpo. Helena desceu com Carlos e sentaram-se à mesa. Tudo parecia triste demais; a forma sistemática como cada um se movimentava, a maneira burocrática de dividir o tempo para casa afazer. Resolvi quebrar a rotina gélida na qual a família estava condicionada, mesmo não tendo certeza se era o melhor a fazer.
- Filho, o que você gostaria de fazer hoje? – perguntei sorrindo.
O garoto olhou para Helena como se esperasse por sua aprovação. Ela por sua vez olhou para mim tentando decifrar-me.
- O que foi que aconteceu, está tentando recuperar o tempo perdido?
- Talvez eu não tenha sido uma boa pessoa nos últimos tempos, mas quero me redimir.
- Não seja ridículo. – disse ela limpando-se com o guardanapo e se retirando da mesa.
- Eu queria pescar. – disse o garoto.
- Então vamos. – sorri.
Precisei da ajuda da empregada para encontrar a vara de pescar que estava na área de serviço. Eu e Carlos fomos ao açude que havia logo depois do jardim de rosas. Com o passar da conversa descobri que o garoto nunca havia pescado, não sabia nem mesmo que era preciso cavar para conseguir minhocas para o anzol. Não entendo por que as pessoas adquirem coisas das quais não utilizam ou fazem filhos para terem apenas um modelo de família da qual nunca darão o devido valor. Carlos não era de falar muito ou pelo menos parecia ter receio ao pronunciar cada palavra. Até que o garoto se saiu bem em sua primeira pescaria. Helena apareceu perto do meio-dia e nos chamar para o almoço. Tentei conversar com ela, mas se manteve irredutível. Imagino o que o crápula do meu irmão deve ter feito para a pobre moça. Com certeza havia uma história para os hematomas.
No começo da tarde, Júlio trouxe o discurso que eu leria para o povo no dia seguinte, no centro da cidade. Não pensei que a política funcionasse dessa forma, era tudo muito simples e objetivo. Qualquer um poderia exercer a minha função. Nunca entendi a necessidade de haver políticos, quando na verdade é o povo quem faz a engrenagem girar.
À noite, na cama, Helena fechava o livro e se preparava para despir-se.
- Você não precisa fazer isso – disse eu.
- Fazer o quê?
- Você pode não acreditar e até mesmo me odiar pelos erros que cometi. Só que aquele homem que você conhecia, não existe mais.
- O que você está tramando? – perguntou ela pondo as mãos na cintura.
Realmente era difícil começar um diálogo com aquela mulher.
- Desculpa se eu te machuquei...
- Não me importa o que você fez ou vá fazer. Só quero que o meu filho seja feliz, mais nada.
Despiu-se por obrigação e se deitou. Jamais eu tocaria nela. Senti nojo de mim por ter que ser quem eu não era. Precisava convencê-la a não me temer, mas ao mesmo tempo não poderia me deixar levar por sentimentalismo a uma família que não era a minha.
A charrete veio pela manhã. Fui levado à câmara municipal. Júlio me esperava na minha sala.
- Deu uma lida no discurso? – perguntou ele.
- Li. Quem os escreve?
- Isso depende do momento e da razão. Às vezes eu, outras vezes Ulisses.
- E quando é que eu poderei escrever o meu próprio discurso? – perguntei.
- Isso foi uma pergunta ou uma piada? Não se esqueça, você não tem voz aqui, apenas imagem. – sua postura era séria - E já vá se preparando, daqui a pouco a plebe chegará.
Fui para a sacada. Havia algumas pessoas à espera, grande parte era visivelmente constituída de desempregados e maltrapilhos. Júlio se aproximou.
- Pelo que essas pessoas esperam? - perguntei.
- Eles só querem que você diga que está tudo bem e que as coisas vão melhorar.
Foi exatamente o que fiz, claro que baseado no discurso escrito. Expliquei que aumentaríamos a taxa de juros para equilibrar a economia. Mantendo-a equilibrada, o índice de desemprego seria menor. E terminei dizendo que no final tudo daria certo. Não sei se o que estava no discurso era verdadeiro, o certo é que eles acreditaram e foram embora como obedientes carneiros.
Júlio me acompanhou até a charrete.
- Precisaremos de você amanhã. Vamos ter reunião com um empresário.
- Mas você disse que eu só precisaria assinar documentos.
- Sim. Só que nem todos sabem como funciona a política. Sua imagem como líder não pode faltar. Apenas compareça e concorde com o que dissermos.
- Certo.
Talvez ele tivesse mais conhecimento do que eu sobre política, no entanto, as coisas não precisariam ser exatamente como Júlio e Ulisses queriam que fosse. Pedi para que o condutor da charrete andasse pelos bairros mais pobres, eu queria saber do que aquelas pessoas realmente precisavam. Além do mais, nunca gostei de seguir ordens. Se eu fosse ter uma vida financeiramente estável, queria pelo menos fazer algo para compensar. Por alguns quilômetros tudo o que vi parecia bem desenvolvido. As casas, o comércio, as pessoas em seus trajes de luxo, porém, algum tempo depois o contraste se deu pelas ruas estreitas e esburacadas; a partir desse momento parecia outra cidade, um lugar por algum motivo esquecido. A sujeira não estava apenas nas ruas, mas também na face dos operários, das crianças encardidas. Idosos e jovens raquíticos esperavam na fila para a sopa.
- É a prefeitura quem distribui a comida a eles? – perguntei para o condutor.
- Não, senhor. Alguns restaurantes servem a sobra.
- Meu Deus.
- O que o senhor disse?
- O que a prefeitura faz por essas pessoas?
- Desculpa, senhor, mas acho que não sei responder a essa pergunta.
- Pare. Preciso conversar com esses cidadãos.
- Não posso. Não há policiais nessa redondeza e essas pessoas o detestam.
- Volte. Me leve para casa.
- Sim, senhor.
Ao chegar em casa, passei parte do dia bebendo vinho em frente à lareira e pensando numa forma de mudar a situação. Ainda era cedo para começar uma guerra pelo poder, no entanto iria observá-los. Não estava certo, tudo bem que todos querem uma vida melhor e a política é uma forma de se ter isso, mas por que não fazer algo pelo povo?
Na manhã do dia seguinte a charrete veio me buscar para ir à câmara municipal. Júlio, Ulisses e um outro homem esperavam-me na minha sala. Estavam sentados na mesa redonda.
- Bom dia, senhor prefeito! – se adiantou o homem com um largo sorriso.
- Bom dia a todos! – cumprimentei sem olhar diretamente a eles. Sentei à mesa. – Então, o que temos para hoje?
- Prazer, meu nome é Davi. – insistiu na simpatia.
Cumprimentei-o apertando-lhe a mão, porém, sem conseguir deixar de lado o sorriso desgostoso.
- O senhor Davi irá explicar a situação - disse Ulisses – e então encontraremos a melhor forma para resolvermos o problema.
- A história é a seguinte, tenho uma cervejaria a alguns quilômetros daqui e nela trabalha um número muito grande de funcionários. O problema é que todos eles almoçam no único restaurante do bairro, e não só eles, mas todos os outros funcionários das indústrias próximas também. Não acho isso justo quero que os meus funcionários paguem para mim pelo que consumirem.
- Então por que o senhor não constrói um restaurante? – perguntei.
- É exatamente isso o que quero fazer, um restaurante em frente ao concorrente.
- E precisa da nossa ajuda para isso? – perguntei.
Ulisses pigarreou como um aviso para me conter.
- Preciso comprar um terreno que fica em frente ao concorrente. O problema é que a família que mora lá não quer vendê-lo de jeito nenhum.
- E a oferta que o senhor ofereceu foi boa? – perguntei.
- Sim. O dobro do que vale. Só que o cidadão disse que nem por todo dinheiro do mundo venderia o terreno, pois era herança de família.
- É por isso que esse povo está passando fome. – disse Júlio - Eles pensam pequeno...
- Ou talvez deva ser porque fazemos pouco por eles. – interrompi.
- O senhor trouxe o dossiê do dono do terreno? – perguntou Ulisses.
- Sim. É este aqui. – disse Davi colocando o envelope sobre a mesa.
- O senhor pode voltar amanhã. Encontraremos uma maneira de resolvermos esse problema.
- Muito obrigado. – agradeceu o empresário.
Despediu-se de cada um com um aperto de mão e um balançar de cabeça. Júlio esperou-o fechar a porta e então se levantou irritado.
- O que você pensa que está fazendo? – perguntou com os braços abertos.
- Não está certo o que ele está fazendo, é coisa de gente gananciosa. Ele tem uma cervejaria, com certeza consegue um bom lucro em cima disso. Não precisamos ajudá-lo.
- Não precisamos ajudá-lo? Você acha que a sua mansão foi construída apenas com o seu salário de prefeito? Se você quiser sobreviver nesse mundo é preciso fazer acordos. E outra, nem pense em nos contrariar outra vez. – disse Júlio apontando o dedo - Você está bem longe de ser um bom jogador. Agora saia daqui, pegue uma prostituta, embriague-se e volte amanhã... E não se esqueça, nós é quem mandamos, você não é nada além de uma imagem.
- Tá certo. – concordei num sorriso cínico após me levantar.
Enquanto descia as escadas pensei no conluio que os dois estariam tramando contra mim naquele momento. Fui ao mercado, comprei uma garrafa de uísque, algumas frutas e um revólver de madeira para Carlos. Ao chegar em casa, entreguei o brincado para o garoto, que embora feliz não deu muita atenção, pois estava entretido com a história que Helena lia para ele.
- Qual livro você está lendo? – perguntei.
- Dom Quixote.
- Meu pai tinha esse livro, mas nunca li. Sobre o que fala?
- É sobre um homem que prefere viver feliz lutando contra moinhos em seu próprio mundo a ter que se rastejar no mundo real.
O mais perto que cheguei disso foi ler páginas antigas de jornais que serviam como embrulho de peixe.
Na manhã seguinte, lá estava eu na câmara municipal. Não esperei charrete nenhuma vir me buscar. Quase uma hora depois chegou a dupla.
- Isso são horas? – perguntei ironizando-os.
- Você está bem atrevido para quem recém saiu do buraco. – disse Ulisses.
- Acordei de bom humor. Ah, me desculpem por ontem.
- Tudo bem. Leva-se algum tempo para pegar o espírito da política. – disse Júlio.
Somente estando ao lado dos meus inimigos é que saberei exatamente como e onde atingi-los.
Davi chegou pouco tempo depois. Sentamos todos na mesa redonda à espera do outro empresário no qual Júlio havia contatado no dia anterior.
- O senhor que está para chegar é o patrão do cidadão que não quer vender o terreno. – disse Ulisses.
- E o que ele pode fazer por nós? – perguntou Davi.
- Você já vai ver.
Mal terminou a frase e alguém bateu à porta. Era o homem a quem esperávamos. Houve todo o cordial cumprimento. O homem chamava-se Miguel e era dono de uma mercearia. Partimos logo para o que mais interessava, os negócios.
- Bem, vamos direto ao assunto. – disse Ulisses – O senhor tem um funcionário chamado Pedro...
- E por sinal é um dos melhores que tenho. – interrompeu Miguel - Um homem muito dedicado. O primeiro a chegar e o último a sair.
- Tenho certeza que o senhor poderá encontrar alguém mais qualificado. – disse Ulisses.
- Como assim?
- Queremos que o senhor demita-o. – disse eu.
- Mas por que eu faria isso?
- O senhor Davi tentou comprar o terreno do seu funcionário, só que ele se negou a vender. Disse que não faria nem por todo o dinheiro do mundo. – Expliquei.
- Só por isso eu terei que demiti-lo?
- Se o senhor fizer isso, - disse Júlio - ficará livre de impostos até o ano que vem, terá crédito com a prefeitura. Isso significa que qualquer problema que o senhor tiver, nós é quem resolveremos. No terreno do senhor Pedro será construído um restaurante, no qual você e sua família poderão almoçar e jantar gratuitamente por dois anos. Essa é a nossa proposta. O senhor só precisa demiti-lo.
- Desculpa, mas não posso fazer isso com ele.
- O senhor é um homem de negócios, assim como todos nós – disse eu – e sabe perfeitamente bem como as coisas funcionam. Hoje seu estabelecimento está seguro, pois damos a segurança que as pessoas precisam, no entanto, também podemos tirá-la de quem não é digno de recebê-la. Não faça essa cara de assustado. O senhor entendeu exatamente o que estou querendo dizer.
- Será que eu posso dar a resposta amanhã?
- Pode. Mas se eu fosse o senhor tomaria cuidado esta noite, pois talvez, só por um talvez, o senhor acorde com a mercearia em chamas.
Meu tom ameaçador fez Miguel respirar fundo.
- Entendi. Eu não tenho escolhas e nem o pobre Pedro.
- Muito bem. – disse eu com um sorriso sarcástico - O senhor realmente entendeu.
- Amanhã ele será demitido. – disse levantando-se desolado. – É só isso?
- Sim.
Acompanhei os passos daquele pobre homem para fora da sala. Davi nos agradeceu calorosamente e foi embora algum tempo depois.
- Estou impressionado! – disse Ulisses – Não pensei que você conseguiria me subestimar. Parabéns.
- Isso pede uma comemoração. – disse Júlio.
Nós três deixamos a câmara municipal e fomos de carruagem a um prostíbulo. Júlio pegou uma das damas e levou-a para o quarto. Eu e o velhote ficamos no bar bebendo uísque e fumando charuto enquanto recebíamos massagens de algumas jovens prostitutas. Era evidente que Ulisses já havia passado do prazo de validade. Não conseguiria levar nenhuma garota para a cama, mas ainda assim fazia questão de ostentar poder. Se eu conseguisse embebedá-lo o suficiente, talvez pudesse tirar alguns segredos obscuros, porém, ele era mais esperto do que eu pensava. Sempre que eu fazia qualquer pergunta sobre sua vida pessoal ou política, ele apenas dizia ‘beba mais um’; e foi assim até eu adormecer sobre o balcão e só acordar na manhã seguinte na sala da minha mansão. Não sei como cheguei ou quem me levou pra casa, mas o certo é que eu estava lá, deitado no sofá da sala e com uma ressaca que fazia minha cabeça palpitar. Só comecei a me sentir melhor depois de vomitar no sanitário. Fui à cozinha, a empregada preparou uma refeição que me fez sentir-me novo em folha.
Passamos o resto da semana colhendo impostos, eu e Júlio ficávamos dentro da carruagem apenas observando o homem da cobrança, assim chamado pelo povo. Júlio o idolatrava pela forma como discursava, sua eloquência penetrava de tal forma no moral dos devedores que em questão de poucos dias até o mais miserável dos homens dava um jeito de conseguir o dinheiro necessário para quitar a dívida. Júlio me disse que algumas famílias chegavam a vender a virgindade de suas filhas para não perder o terreno para a prefeitura. O momento de maior êxtase para o homem da cobrança foi quando paramos em frente à casa de Pedro, o funcionário da mercearia, que agora era mais um desempregado.
- Essa eu quero ver bem de perto. – disse Júlio descendo da carruagem – Você não vem?
- Não. Deixa pra próxima.
O homem da cobrança chacoalhou um pequeno sino, era esse o som que avisava sua chegada. O desafortunado Pedro parecia cansado quando abriu o portão para ir até a rua. Não era possível precisar uma idade para o desempregado, mas arrisco dizer que estava perto dos sessenta anos. A distância entre mim e eles era grande e me impedia de ouvir a conversa, no entanto, os gestos diziam muito. Júlio, de braços cruzados, apenas observava a ação. Pedro ouvia tudo de cabeça baixa. O homem da cobrança gesticulava até demais, ora apontava para a rua, ora para o alto e por fim para o terreno. Ficou nesse discurso de gestos por cerca de cinco minutos e então voltaram para a carruagem.
- E então, como foi? – perguntei.
- Nosso plano deu certo. Ele está desempregado e sem dinheiro para os impostos. Daqui a dois dias iremos tomar o terreno. – disse Júlio evidentemente feliz.
Quando cheguei em casa à noite, Helena estava na cozinha bebendo uma taça de vinha enquanto lia um livro. Mesmo que se esforçasse para me odiar, ela era a única pessoa com quem eu podia conversar decentemente. Sentei ao seu lado. Ela fingia se concentrar na leitura, mas seus olhos denunciavam o incômodo pela minha presença.
- Posso conversar com você?
- Estou lendo.
- Eu sei. É que você é a única pessoa com quem posso conversar.
- Os seus amigos e as prostitutas te abandonaram?
- Nunca pensei que a política fosse tão suja.
- É mesmo? E você enriqueceu como?
- Tudo isso vai acabar. – disse eu.
Ela abaixou o livro.
- Como assim?
- Esses homens estão deixando o povo a mercê deles. Vou mudar isso. Acredite, o marido que você conhecia não existe mais?
- Eu acredito. Já faz tempo que você não me agride.
- Cedo ou tarde você saberá a verdade sobre mim e talvez entenda por que algumas coisas não são mais como antes.
- E como é que você espera mudar a política?
- Vou escrever tudo que eles estão fazendo de errado e os denunciarei à justiça.
- E você tem como provar?
- Sim. Eles ameaçaram um comerciante. Posso convencê-lo a servir como testemunha. Vou colocar esses corruptos na prisão.
- Se você estava junto quando tudo isso aconteceu, sabe que você também sofrerá as consequências, não é? Sendo você o prefeito, será visto como o líder do bando.
- Eu sei, mas é a minha vida pela de muitos que estão padecendo por causa dessa escória.
- Faça o que tem de fazer. Faça a coisa certa. Embora eu não acredite em nenhuma palavra do que você diz.
Na manhã do dia seguinte, fui até o banco da cidade. Chegando lá, retirei uma boa quantia em dinheiro da minha conta como prefeito. Em seguida me dirigi à casa de Pedro. Já era quase onze horas e havia pouco movimento na rua. Esperei para que as poucas pessoas que havia se dispersassem e então bati no portão, que de madeira tão podre quase se esfacelou. Pedro abriu a porta, parecia ainda sonolento. Veio até o portão.
- Não quero desrespeitá-lo, senhor prefeito, mas só poderão tomar minha casa amanhã.
- Eu não vim aqui para isso. Amanhã quando vierem tomar-lhe a casa, entregue isso. – disse eu puxando do bolso da calça o enorme maço de dinheiro.
- Eu não entendo... – disse ele assustado.
- Não precisa entender. Apenas pague-os quando aparecerem. Aí tem o dinheiro do imposto e mais um tanto para você viver por uns seis meses.
- Mas e se eles perguntarem como consegui o dinheiro?
- Você não deve explicação alguma para eles, de qualquer forma, pode dizer que são suas economias. Preciso ir agora. Até mais.
- Deus o abençoe. Sempre tive certeza de que o senhor era um homem bom.
Helena não estava em casa quando voltei, a empregada disse que ela havia ido ao mercado fazer compras e que preferiu não levar o garoto. Fui ao quarto e comecei a preparar minha carta de renúncia e um documento denunciando todas as irregularidades e as ameaças feitas por eles. Helena voltou horas depois, à noite.
- Preparei minha carta de renúncia e um documento denunciando todos os envolvidos.
- Você está falando sério?
- Sim.
- Posso ver?
- Está na gaveta da cômoda.
- E quando você fará a denúncia?
- Amanhã eles irão tentar tomar o terreno de um senhor. No mesmo instante, estarei no ministério público entregando as denúncias ao procurador de justiça. Não sei o que será da sua vida daqui pra frente, talvez tenha que se virar sem mim.
- Não se preocupe comigo. – disse ela esboçando um sorriso - Estou muito orgulhosa por você fazer a coisa certa. Agora posso ficar mais aliviada. – abraçou-me - Acende a lareira. Vou à adega buscar uma garrafa de vinho.

Foi a primeira vez que vi seu sorriso. Eu ainda permanecia com o pensamento de não tocá-la sexualmente, mas queria viver aquele momento de felicidade, já que seria minha última noite naquele lugar. Acendi a lareira e esperei Helena voltar. Passou à minha frente carregando a garrafa e seguiu para a cozinha, depois retornou com duas taças cheias. Ficamos sentados cada um em sua poltrona, observando o fogo queimar a lenha.
- A única coisa que me preocupa é você e o Carlos. – disse eu me referindo ao futuro.
- Não se preocupe. Tenho dinheiro suficiente para viver por uns tempos. – disse ela bebericando o vinho.
Pensei que nunca conseguiria ter um diálogo verdadeiro com aquela mulher. Mesmo que ela me dissesse que estava tudo bem, ainda assim a verdade sobre mim apareceria no dia seguinte, e então a admiração que ela tinha naquela noite, seria uma decepção na manhã seguinte. Ao término da taça comecei a me sentir estranho, meu corpo ficou leve de repente, minha cabeça parecia se apagar, a vista pesou e mal conseguia me mexer.
- Tem alguma coisa errada. Eu não estou bem. – disse olhando para Helena.
- Não se preocupe, esse é o efeito do remédio.
- Remédio? Que remédio?
Tudo parecia girar, ora rápido, ora lentamente. Fiquei desorientado e ofegante.
- Feche os olhos. Não lute contra isso.
- Droga! O que foi que você fez comigo?
Essa foi a última coisa que eu disse antes de apagar totalmente. Acredito ter ficado pelo menos umas quatro horas adormecido sob efeito do remédio. Acordei aos poucos, atordoado, com movimentos lentos. À minha frente havia uma pessoa, porém, minha visão estava tremida e embaçada demais para identificá-la; via apenas seu vulto nebuloso. Ainda havia fogo na lareira, que por vezes parecia se mexer. A pessoa que eu estava vendo fez um movimento brusco e jogou algo na lareira.
- Suas denúncias acabam de virar cinzas.
A voz era distorcida, mas familiar. Meus olhos não conseguiam se fixar em nada devido à vertigem. Minha cabeça pendeu para o lado e então vi duas pessoas sentadas nas poltronas ao meu lado.
- Você nunca foi um bom jogador. – disse uma delas se levantando.
Aos poucos consegui identificá-los. O que acabara de se levantar era Júlio e o que havia queimado a carta era Ulisses.
- Como foi que vocês entraram? – perguntei meio grogue.
- Você acha mesmo que lhe daríamos todos os privilégios sem ser vigiado? – disse Júlio.
Minha cabeça pendeu novamente e então percebi que a outra pessoa, ainda sentada, era Helena. Mesmo confuso compreendi que ela estava envolvida com aqueles criminosos. Fechei os olhos e abaixei a cabeça, a decepção me derrubou. Como pude ser tão ingênuo a ponto de acreditar que poderia mudar algo?
- Meu irmão nunca se matou, não é? – perguntei.
- O problema com o seu irmão foi diferente. – disse Ulisses – Ele queria nos derrubar para ganhar mais.
- E o que vão fazer comigo?
- Estávamos discutindo isso enquanto você dormia. – disse Júlio tirando um revólver do casaco - Mas acho que tive uma ideia que resolverá também um outro problema. Tem mais alguém na casa além de nós? – perguntou para Helena.
- A empregada já foi pra casa dela e Carlos está dormindo no quarto dele, mas não se preocupe, tranquei a porta.
Júlio mirou para Helena e disparou em seu rosto. Ela não teve tempo para reagir, parte de sua mandíbula se esfacelou. Foi morte instantânea.
Entrei em alerta. Foi como se toda a sonolência tivesse sido substituída pelo susto.
- Você teve uma discussão com sua mulher e a matou. – explicou Júlio – Em seguida cometeu suicídio. Segure-o – disse para Ulisses.
O velhote foi para trás da poltrona e segurou meus braços com firmeza. Embora minha mente estivesse ativa, meu corpo ainda se recuperava do efeito do remédio. Mas quando se luta pela vida, você cria uma força indizível. Esperei Júlio se aproximar e então me desvencilhei fácil de Ulisses. Ouvi o disparo e senti a bala se alojando em meu ombro. No momento não pensei em nada, a não ser pela obrigação de sair vivo, vencer aquela situação. Pulei em cima de Júlio. Caídos ao chão, lutamos; cada um com sua força para obter o domínio do revólver. Ele era mais forte que eu, pelo menos naquele momento. O revólver estava entre nossas faces, apontado para o horizonte. Eu só precisava dobrar-lhe o braço e então me sobressairia. Ele se esforçava para mirar em minha cabeça, eu apenas tentava o momento certo para atingi-lo de forma vital. Consegui com extraordinário esforço abrir uma brecha entre mim e o revólver. Aproveitei a oportunidade e o atingi com uma cabeçada no nariz. Ele enfraqueceu, dobrei-lhe o braço e consegui a posse do revólver. Rapidamente me pus a levantar, olhei fixamente em seus olhos.
- Por favor, não! – implorou ele com o nariz sangrando e juntando as mãos para pedir por misericórdia.
Dei o primeiro disparo que fez seus pulsos juntos explodirem. O segundo abriu-lhe o peito. Deixei-o ali agonizando, sufocando-se com o próprio sangue. A porta de entrada da casa estava aberta, Ulisses havia escapado. Ouvi o choro de Carlos no andar de cima, mas eu não podia deixar o velhote fugir. Corri para fora de casa, o céu estava lilás como seis da manhã. Avistei a carruagem mais adiante, cruzando as árvores. Atravessei correndo o jardim e passei ao lado do açude, o atalho me rendeu uma grande vantagem de distância. A carruagem parou para que o condutor abrisse o portão. Cada segundo que se passava eu estava mais próximo. Alcancei-os no momento em que as rédeas eram puxadas. Pus-me à frente da carruagem e apontei o revólver na direção do condutor.
- Por favor, senhor prefeito, não faça isso.
- Não se preocupe! Não é você quem eu quero. Apenas desça e vá embora.
O jovem desapareceu sem olhar para trás. Meu ombro queimava feito brasa. Parei por um momento para recuperar o fôlego e então me dirigi à carruagem, abri a porta. Ulisses tremia de medo e ao mesmo tempo permanecia sem olhar para mim.
- Você não sairá livre dessa. – disse ele.
- Eu sei. Você também não.
Encostei o cano do revólver em seu ouvido e disparei. Seu corpo pulou para o lado, o crânio se abriu deixando exposto parte do cérebro. Sua glória estava acabada, assim como a minha vida e o sofrimento do povo. Voltei para a mansão, eu tinha pouco tempo antes de a polícia chegar. Definitivamente a fuga não passou pela minha cabeça. Arrombei a porta do quarto de Carlos. O garoto estava sentado à cama, soluçava de medo.
- Você tá machucado! – disse apontando para o meu ombro - Onde tá a minha mãe?
Sentei ao seu lado.
- Você é novo demais para entender isso, mas sua mãe foi embora. Ela está num lugar mais justo...
Ouvi passos nas escadas. Era a polícia.
- Saia de perto da criança. – disse o oficial apontando a arma em minha direção.
Passei quatro dias sendo interrogado. Analisaram o meu caso e então veio o veredicto, serei enforcado em praça pública pelos homicídios.
No momento estou prestes a passar pela queda longa, uma forma um pouco mais rápida de se morrer na forca. Não precisarei sentir a angústia de ter meu pescoço apertado por uma corda que comprimirá minhas artérias até a morte. Na queda longa é feito um cálculo de altura e peso suficiente para quebrar o pescoço.
- Você tem algo a dizer? – perguntou o carrasco.
Olhei rapidamente para a multidão. Amontoados olhos de miséria e desespero contidos em cabisbaixas esperanças. O povo muitas vezes vive como uma carne necrosada esperando apenas que a verminose política os consuma. Um dia eles compreenderão a força que tem, mas não hoje, não agora.
- O que fiz... Foi pelo povo.
O alçapão foi aberto, meu pescoço se quebrou. A multidão abaixou a cabeça e foi embora.

terça-feira, 20 de março de 2012

Apocalipse da Verdade

  Apocalipse da Verdade

 

                                     Anderson Felix

 

Meu nome é Cristine. Eu poderia começar falando sobre a dificuldade de fugir a cada dia que se passa, mas acho que só isso não seria suficiente para que pudessem entender. Portanto contarei a partir do dia em que tudo começou. Em julho de 2012, o mundo conheceu sua inevitável degradação. Muito diferente do que boa parte da população acreditava ou torcia para que ocorresse, não foi um meteoro, profecia bíblica, aquecimento global ou qualquer teoria da conspiração. O extermínio de boa parte da raça humana se deu pela verdade.

Cheguei em casa à noite, depois de um dia cansativo na universidade. Tirei os sapatos, aqueci uma pizza no micro-ondas, deitei-me na cama e liguei a televisão. Estava sendo transmitido o jornal da noite. A notícia era um pouco confusa, mas se tratava de uma rebelião que havia ocorrido no presídio. Os motivos eram explicados pelos âncoras do telejornal, que apresentavam por um segundo plano uma imagem dividida em cinco pequenos quadros; para cada quadro havia um rosto, que segundo os apresentadores, tratava-se de presidiários enfermos. As faces eram deformadas como se alguém houvesse os untado com argila e ao invés de se tornar uma massa rígida, o resultado foi uma pele entumecida e oleosa, que agora fazia parte do corpo. Eles tinham fisionomias muito parecidas, mas ainda assim com um detalhe próprio: cada rosto era pigmentado por uma cor distinta.

A matéria continuou em um link ao vivo. O repórter se encontrava em frente ao presídio onde ocorreu o fato.

- Estamos aqui com o diretor do presídio de Florianópolis... Ele vai nos contar melhor sobre o que aconteceu.

- Primeiramente, boa noite. – disse o diretor com os dedos entrelaçados abaixo da gravata - Hã... Tudo ainda é muito incerto. Como vocês puderam observar nas fotos apresentadas, a imagem é realmente muito chocante. A princípio havia apenas seis detentos na cela, os outros estavam tomando banho de sol... E alguns minutos depois, ouvimos gritos vindos do corredor, no qual imediatamente nos deslocamos e ao chegarmos à cela, foi constatado que cinco deles apresentavam fisionomias aparentemente grotescas... Por assim dizer. Não souberam explicar como havia acontecido. Imediatamente isolamos a área. Comunicamos aos órgãos competentes e procuramos nos arquivos dos detentos qualquer coisa que se relacionasse ao ocorrido. Acabamos nos deparando com um detalhe muito significativo: dois dos seis presos possuem descendência suspeita. Um é haitiano, sem querer julgar qualquer religião ou raça, mas nos remete à possibilidade de um possível vodu. O outro é árabe, coincidentemente o único na cela que não sofreu essa transformação. Pelo histórico de sua naturalidade, temos também uma possível hipótese sobre terrorismo. No decorrer de tudo isso, os outros presos que voltavam do banho de sol ficaram estarrecidos com o que presenciaram e começaram a se rebelar; uns tentaram fugir, outros se ajoelharam para rezar e um grupo conseguiu dominar os guardas. Posteriormente esse grupo assassinou os detentos que estavam sofrendo com a anomalia. Tentamos dialogar, não obtivemos êxito, então a tropa de choque foi acionada para conter a rebelião. – disse o diretor mostrando-se indigesto com algo.

- Curiosamente, – disse o repórter num tom desafiador - os únicos que morreram nesse confronto foram os que sofreram com a deformação.

- É, mas... – tentou argumentar o diretor.

- Chegou a nós o comentário de um detento, de que o senhor ao ver a situação dos que estavam infectados, ordenou imediatamente que fossem mortos e queimados. A rebelião teria começado a partir desse fato. O que o senhor tem a dizer sobre isso?

- Estou com a minha consciência tranquila e posso lhe assegurar que não há veracidade nisso. Estou à disposição para qualquer investigação que queiram ou possam fazer... O resto, jogo na mão de Deus. – disse sorrindo e inclinando o corpo para trás.

O repórter estava pronto para encerrar a entrevista quando o cinegrafista, percebendo algo estranho no rosto do diretor do presídio, resolveu dar um close.

- Meu Deus! – disse o repórter assustado.

O diretor não entendia o que estava acontecendo, até que o cinegrafista apontou para o próprio rosto como forma de explicar. Ao se tocar medrosamente à face, o diretor sentiu a tez borbulhar e produzir uma massa pastosa, deformando-o no rosto para em pouco tempo se tornar rígida e marrom. Rapidamente o link foi interrompido, dando lugar para os comerciais. Fiquei apreensiva. Liguei meu notebook para buscar algo sobre o ocorrido. Encontrei alguns pequenos artigos recém e mal escritos em blogs sobre a hipótese de ser um vírus produzido pelo condenado árabe. Alguns minutos depois, frases em Twitters diziam que Florianópolis deveria ser isolada, já que se tratava de uma ilha. Liguei para minha mãe para dizer que estava tudo bem, mas ela nem ao menos sabia do que eu estava falando. Preferi encerrar o diálogo para não apavorá-la. Peguei algumas toalhas e forrei as portas e janelas, se fosse realmente um vírus, haveria a possibilidade de se propagar pelo ar.

A cada dez minutos os canais transmitiam algumas informações como: estoque de comida, evitar às ruas e não entrar em pânico.

O próprio aviso já era um pânico.

Acho que eu não era a única assustada com tudo aquilo, pois estava bem alto o som da televisão da casa à frente. Eles sim é que deviam estar amedrontados, pois tinham um filho pequeno.

Já eram quase três da manhã. Eu lutava contra o sono, estando preocupada com tudo aquilo. O dia havia sido cansativo. Passo parte do tempo na universidade estudando Química e depois estágio na escola. Minha vista ardia muito. Fechei os olhos por um tempo, queria que fosse apenas o suficiente para descansá-los, porém acabei adormecendo.

Acordei com gritos horripilantes de desespero. Levantei-me rapidamente assustada. A televisão estava ligada, mas não me preocupei em olhar diretamente às imagens. Meu celular indicava seis e oito da manhã. Abri a janela do quarto para ver a rua, era de lá que vinham os gritos. Meus vizinhos da casa à frente corriam sôfregos pelo quintal, a criança como fuga; o marido e a esposa, como forma de se esconder. O casal fora infectado. Tentavam cobrir os rostos com as mãos, no entanto não conseguiam esconder a enorme camada de pele que fugia por entre os dedos. Eram faces amareladas, iguais as de um dos condenados que apareceu no telejornal. A princípio eu quis sair de casa para ajudá-los, mas precisava ter certeza do que estava acontecendo. Fechei a janela com imensurável medo. Mesmo eufórica, atentei-me para o noticiário. O vírus havia se espalhado e a cidade ficaria em quarentena. Ninguém poderia entrar ou sair até que alguns testes fossem feitos e se tivesse certeza sobre as causas. Queria que tudo não passasse de um pesadelo angustiante. Observei a situação pela fresta da janela do quarto. Só consegui avistar o garoto sentado na escada para a porta de entrada da casa. Eu deveria abrir a janela e chamá-lo, porém se ele também estivesse infectado, seria questão de pouco tempo para que começasse a se transformar. Eu até estava com fome, só que nada nesse mundo me faria desgrudar os olhos do garoto. A cada minuto que passava eu me sentia mais covarde por deixá-lo sozinho.

Ele olhava assustado para uma direção onde a minha visão não alcançava. Parecia que alguma coisa estava para acontecer. O garoto se levantou lentamente com certo temor. Eu não podia mais esperar, abri a janela e fiz um sinal para que ele viesse. Atravessou a rua velozmente e o ajudei a pular a janela. Enquanto estava fechando-a, vi uma família inteira correndo, não estavam deformados, mas a expressão era de pavor, como que fugissem de algo.

- Onde estão seus pais? – perguntei.

O garoto olhou para baixo, aparentava ter uns onze anos.

- Meu pai disse que não queria que eu fosse infectado. Ele está trancado no quarto com a minha mãe.

- Como foi que eles ficaram daquele jeito?

- Eu não sei. Eles já acordaram assim. Acha que eu posso ficar daquele jeito? – perguntou levantando a cabeça e me fitando com pequenos olhos azuis.

- Talvez. Qual é o seu nome?

- Daniel.

- E o telefone da sua casa?

Ele disse o número. Disquei, no entanto ninguém atendeu. Continuei a ligar algumas vezes. Cada vez mais eu ficava preocupada com o que podia ter acontecido, com o que aconteceria a mim e àquele garoto.

Segundo o noticiário, o vírus já havia se espalhado afetando toda a cidade. Não sabia se eu e o Daniel éramos exceções e nem o porquê de ainda não termos sido infectados. O telefone tocou, provavelmente eram os pais do garoto.

- Alô!

- Filha, você está bem?

Era a minha mãe. Ela falava num tom de voz quase inaudível.

- Sim, mãe. E a senhora, como está?

- Estou bem. O rádio e a televisão só falam sobre essa epidemia. Estão chamando os infectados de Deformes. Você precisa vir para cá o mais rápido o possível.

- Eu vou, mas primeiro quero ter certeza sobre as condições... Talvez as estradas estejam congestionadas.

- Eles estão vindo! – disse Daniel olhando pela fresta da janela.

- Mãe, preciso desligar. Mais tarde eu ligo pra senhora.

Não esperei ela dizer nada. Desliguei o telefone e corri para a janela. Um grupo de sete jovens Deformes, com jaquetas de couro e suspensórios caminhava tranquilamente pela rua, tinham faces monstruosas e azuladas. Pude ver a suástica tatuada no antebraço de um que se abaixava para amarrar o coturno. Diferente dos outros infectados, o grupo parecia não se importar nem um pouco com tudo aquilo.

Dois dias se passaram, helicópteros sobrevoavam a todo instante jogando caixas com kits de sobrevivência. Havia pelo menos duas dessas no meio da rua. Minha mãe me ligou pela manhã, estava preocupada. O garoto passava o dia todo lendo e admirando meus livros de Química Eu precisava procurar pelos pais dele. Não tinha a menor ideia de por mais quanto tempo conseguiria ficar aprisionada em minha própria casa e com uma criança para cuidar. Esperei os voos cessarem.

- Me espere aqui. Vou até a sua casa procurar os seus pais.

- É perigoso. Você pode ser infectada.

- Vou improvisar uma máscara com a toalha de louça até chegar à rua. Depois eu pego a caixa com o kit. Não saia daqui, entendeu?

Ele apenas assentiu com a cabeça.

Preparei a máscara com a toalha, passei pela cozinha e abri a porta com certo temor. Nenhum movimento ou som, a não ser por um casal de andorinhas próximas do meio-fio e a minha respiração abafada. Não sei se era o sol que estava totalmente forte ou se era eu que estava há muito tempo sem senti-lo. Caminhei atenta a cada detalhe. O medo era tão grande, que me assustei com o som que meu sapato produziu ao tocar uma pequena brita. Cheguei ao meio da rua, tentei abrir a caixa, mas estava fortemente lacrada. Não podia perder tempo daquela forma tão exposta, desisti, pegaria na volta. Continuei em frente. Aproximei-me da casa. Tentei olhar através da vidraça da janela, parecia não ter ninguém por ali. Movi a maçaneta e abri a porta. Mesmo com a toalha cobrindo o rosto, senti um leve odor de carne podre. As portas dos cômodos estavam todas abertas. Decidi por uma delas, que pelo guarda-roupa enorme que eu podia ver de onde estava, acreditava ser o quarto dos pais. Quanto mais me aproximava, mais forte era o cheiro. Quando definitivamente entrei no quarto, pude ver os dois corpos sobre a cama. A mulher estava de bruços e seu rosto coberto pelos cabelos loiros. O montante de sangue seco no travesseiro indicava que a jugular havia sido cortada. O homem estava com a faca cravada no coração. Provavelmente matou a esposa e cometeu suicídio. Sua boca e olhos estavam abertos. A face continuava deforme, só que o amarelo já não era mais tão intenso. Uma imagem terrível. O som do helicóptero começava a se aproximar. Saí correndo do local, peguei a caixa que estava no meio da rua e retornei à minha casa. Fechei rapidamente a porta e no mesmo instante me lembrei do garoto. Não sabia o que dizer a ele. Preocupei-me primeiro em abrir a caixa. Havia um conjunto de cinco máscaras com duas pequenas válvulas. Juntas estavam também diversas barras de cereais e uma garrafa de água de dois litros, além de um manual de sobrevivência, que não ajudava em muita coisa. Entrei no quarto. Tinha de ser rápida ao dar a notícia. O menos sensível possível, porém ele ainda era uma criança, não poderia ser tão ríspida assim.

- Preciso falar com você! – disse eu.

Ele não me olhou, apenas fez um sinal de silêncio e apontou para a televisão. Sentei-me à cama e prestei atenção na tabela de cores que era apresentada. Aumentei o volume, no entanto a imagem havia sido encerrada dando lugar ao estúdio onde se encontravam dois convidados numa mesa redonda juntos do apresentador. A primeira pergunta foi direcionada para um biólogo.

- Existe uma explicação plausível para tal acontecimento? – perguntou o apresentador movendo levemente o cartão com as perguntas.

- Bem, - respondeu o biólogo - deformações tão extremas no corpo humano estão sempre associadas à genética, mas nesse caso específico tudo começou no presídio, um lugar fechado, com higiene e alimentação precárias. Pode ser que um deles já estivesse doente e a automedicação possa ter ocasionado uma mutação no vírus.

- Mas poderia se espalhar tão rapidamente como estamos vendo?

- Isso é muito relativo.

- Não seria o condenado árabe, uma molécula terrorista de uma partícula maior? Ele foi o único naquela cela a não ser afetado. – disse o apresentador num tom afirmativo.

- Isso realmente é muito relativo.

- Obrigado!

A mesma pergunta foi feita para o segundo convidado. Tratava-se de um psicólogo, senhor taciturno e de poucos cabelos. Afirmava ter encontrado a verdade sobre o ocorrido. Diminuiu um gomo do cinto e ajeitou o paletó antes de começar a responder.

- Como foi mostrada anteriormente, a tabela que eu mesmo fiz indica o resultado de um trabalho árduo de pesquisa desde o início do incidente. Primeiramente, o árabe não é uma célula, partícula ou qualquer coisa ligada ao terrorismo. Analisei o caso dos cinco detentos Deformes. Um deles, o que teve o rosto coberto pela cor vermelha, foi preso por assassinato; o haitiano, que teve o rosto coberto pela cor amarela, e que insinuaram estar ligado ao vodu, foi preso por estelionato; outro preso, acusado de estupro, foi coberto pelo rosa; o ladrão, pelo verde e o racista pelo azul...

- Desculpe interrompê-lo, mas o que o senhor quer dizer com tudo isso? – perguntou intrigado o apresentador.

- O presídio estava com 616 detentos. 249 foram infectados. Os que tinham a mesma cor também haviam cometido o mesmo crime. Claro que ali se encontram reincidentes. Por exemplo, alguns que cometeram assassinatos por ideologias xenófobas, esses foram cobertos pelo roxo, que é a mistura da cor vermelha com a azul.

- Mas o senhor não acha que Deus estaria então os condenando de forma errônea, uma vez que esses homens já haviam sido julgados e condenados?

- E quem disse que eu estou falando de Deus?

- Então sobre o que o senhor está falando? – perguntou o apresentador abrindo os braços sem entender ainda.

- Sobre a verdade. Denominei o vírus como um fenômeno chamado ‘O Apocalipse da Verdade’. Muitos sofrerão com essa epidemia, pois ela serve para identificar as pessoas.

- Isso seria injusto, já que alguns devem ter se arrependido de seus atos.

- Sim. Foi por isso que só um pouco mais de um terço dos detentos sofreram com esse fenômeno. Além dos que estão presos injustamente.

- E o diretor do presídio? Por que ele ficou marrom?

- Foi racista por ter insinuado sobre o haitiano e o árabe, – disse o psicólogo contando nos dedos - matou os infectados e mentiu quando disse que morreram na rebelião. Ou seja, mistura azul, vermelho e amarelo, olha aqui a tabela. – disse erguendo-a e a aproximando para a câmera.

A tabela indicava que a mistura dessas cores teria o resultado marrom.

- Mas amarelo não foi a cor do haitiano estelionatário?

- Isso. O estelionatário engana, mente.

- Então boa parte dos infectados serão amarelos. – disse o apresentador.

- Não. Apenas aqueles que não se arrependem.

- Bem, então para concluirmos... O que o senhor pode nos dizes sobre isso tudo?

- Não vejo a hora de isso chegar em Brasília. Vai encher de verde e amarelo.

- Ou seja? – perguntou o apresentador.

- Verde é ladrão, amarelo é mentiroso.

- E quem é ladrão e mentiroso?

- Verde com amarelo dá enxofre.

O apresentador tentou conter o riso e finalizou a entrevista.

Se aquilo fosse mesmo verdade e demorassem a encontrar a cura para o vírus, com certeza o mundo não seria mais dividido em países e religiões, mas sim em Deformes e os Outros. A questão principal é que os Outros seriam em pouco tempo a minoria.

- O que aconteceu com os meus pais? – perguntou Daniel.

- Precisamos sair dessa cidade. Iremos para um lugar mais seguro. Não encontrei os seus... – pensei melhor, se o que o psicólogo havia dito fosse verdade, e eu mentisse, poderia acabar ficando igual àquelas pessoas.

- Você não encontrou os meus pais?

- Encontrei. Eles não sobreviveram.

Daniel não esperava pela resposta. Ficou pálido e com os olhos bem abertos à procura de uma explicação.

- Como assim? Não! Eles não fizeram mal pra ninguém.

Eu queria explicar o que havia acontecido, mas um grito de socorro veio do lado de fora. Daniel correu para a janela.

- Não abra!

- São os meus pais. Eles precisam de ajuda.

Puxei-o para a cama.

- Seus pais morreram. Se você abrir a janela, a gente também vai morrer. Entendeu?

- Tudo bem. – disse ele ainda inconformado.

Olhamos pela fresta. Dois garotos estavam caídos e eram chutados violentamente por sete jovens Deformes de faces azuladas. Percebi que se tratava do mesmo grupo de neonazistas que percorreram a rua dias antes.

- Eles vão morrer se a gente não for lá. – disse Daniel.

- Se sairmos agora, morreremos também.

Um dos garotos espancados estava desacordado, mas eles continuavam a chutá-lo na cabeça. O outro garoto recebia sequências alternadas de socos pelo rosto por um Deforme que estava montado sobre seu peito.

- A polícia tá vindo! – gritou Daniel.

O grupo virou para olhar de onde havia saído a voz, mas não foi difícil encontrar, pois era a casa mais próxima dali.

- Droga! O que foi que você fez? Eles vão nos matar. – disse eu sacudindo-lhe os ombros.

Os Deformes correram em direção à porta de entrada de casa, logo vieram os chutes. Arrastamos o guarda-roupa até a porta do quarto, conseguiríamos bloqueá-los por certo tempo. Em seguida o estrondo de madeira sendo quebrada. Abrimos a janela e pulamos para fora da casa. O medo de morrer percorria cada artéria do meu corpo, mas não havia tempo para tremer. Não sabíamos ao certo para onde fugir, estava tudo muito vazio. Precisávamos de ajuda, só que não podíamos arriscar em correr para o nada.

- Vamos pegar o carro do meu pai. – disse Daniel.

Enquanto atravessávamos correndo a rua até a casa dele, o garoto que havia levado socos na face rastejava em direção ao amigo que permanecia desacordado. Passamos pela cozinha e abrimos uma porta que dava para a garagem. O carro era um Peugeot verde. Daniel se adiantou à minha frente e puxou a maçaneta. A porta do carro estava trancada.

- As chaves! – gritei.

- Tá no quarto. Eu vou pegar.

- Não!

Ele foi mais rápido do que eu. Ficou estático ao entrar no quarto e ver os corpos dos pais. Seus olhos imediatamente pareceram duas bolas de gude lacrimejantes.

- Daniel, - disse eu me abaixando e segurando-lhe o rosto - por favor, eu sei que é difícil para você, mas agora não... Onde estão as chaves?

Ele apenas apontou para o corpo do pai. Havia um volume no bolso da calça. Compreendi que ali estavam as chaves. O odor continuava forte, porém o medo prostrava qualquer náusea.

- Mata! – gritou alguém na rua.

Pulei sobre a cama e peguei apressadamente as chaves no bolso da calça do cadáver. Corri arrastando Daniel até a garagem, no mesmo momento o grupo de Deformes conseguiu arrombar fácil a porta e entrar na casa. Embora fossem ações rápidas, tive tempo de olhar nos olhos daquele que aparentemente comandava o grupo. Olhos de ódio e medo. Tranquei a porta, eles chutavam-na com força. Entramos no carro. No molho de chaves havia o controle do portão da garagem no qual acionei. Pelo retrovisor, via lascas da porta se soltarem enquanto esperávamos uma vida inteira para termos espaço suficiente até sairmos. O grupo conseguiu derrubar a porta. Arranquei com o carro, que por um segundo chegou a trancar o teto no portão. Vi as duas vítimas dos Deformes enquanto girava o volante para entrar na rua, visivelmente mortos. A cabeça do que havia se rastejado estava esfacelada.

Percorremos por cerca de cinco quilômetros pela deserta estrada. Parei no acostamento próximo a um viaduto. Precisava conversar com Daniel, tentar fazê-lo entender a situação.

- Aquilo que você viu... O seu pai fez o que achava que seria melhor para você. Ele tinha medo que você pudesse contrair o vírus. Eu vou te levar para um lugar mais seguro, longe disso tudo.

- Não tem mais lugar seguro. – disse ele - Você vai cuidar de mim como os meus pais sempre fizeram? – perguntou inocente e esperançoso.

- Vou.

- Promete?

- Prometo. – disse eu - Nós vamos para o Rio Grande, minha terra natal.

- Lá é seguro?

- Sim. Podemos ficar lá até conterem o vírus.

Ele sorriu, mesmo com o semblante de tristeza.

Seguimos adiante. Na Beira-mar é que avistamos outros carros; bom sinal de que não éramos exceções. Havia uma blitz ao chegarmos na entrada da ponte Colombo Salles. Os carros à frente andavam muito devagar. Todos estavam cheios de caixas e alimentos, menos o nosso. Vinte metros depois é que descobri ser muito mais do que uma blitz. O exército fortemente armado e alguns homens vestindo uniformes antirradiações haviam fechado a ponte Pedro Ivo. Agora, ninguém mais podia entrar na cidade, apenas sair. Passamos por uma espécie de lava-jato por onde todos os carros precisavam se dirigir se quisessem sair de Florianópolis. O objeto emitia um líquido amarelado. Após sairmos da ponte, um soldado fez um sinal para que parássemos no terreno ao lado. Parei o carro e abri a janela.

- Por que vocês não estão levando mantimentos? – perguntou ele segurando uma enorme metralhadora presa à bandoleira.

- Ficamos apavorados com tudo isso. Só queremos sair daqui.

À frente estavam parados quatro caminhões, as carrocerias eram feitas de jaulas. Três delas estavam cheias de Deformes amarelos, verdes e alguns poucos azuis; no outro caminhão, ao que tudo indicava, eram parentes dos infectados. Choravam e esticavam os braços na vã tentativa de um toque final.

- Estão indo para qual cidade? – perguntou o soldado.

- Rio Grande.

- Vocês precisam andar com o kit de sobrevivência. – disse ele acenando para outro soldado mais adiante, que imediatamente trouxe uma caixa bem maior do que as que eram jogadas pelos helicópteros.

Colocamos no banco de trás e seguimos viagem. Passamos por São José e pegamos a saída para a BR-101. Pedi para Daniel abrir a caixa, liguei o rádio à procura de novas notícias sobre o vírus. Tudo estava deserto, com exceção de alguns carros que passavam pela estrada. Nenhum restaurante ou posto de gasolina abertos; absolutamente nada. O ambiente parecia cada vez pior conforme percorríamos a estrada.

- Tem granola, leite em pó, canivete suíço, mapa, manual, água, salsicha enlatada e nozes. – disse Daniel descrevendo o que havia na caixa.

- Tá parecendo mais uma cesta de natal, do que kit de sobrevivência.

Quando chegamos em Laguna, o carro deu sinal de que a gasolina estava na reserva. Um quilômetro e meio depois paramos em um posto para abastecer. A loja de conveniências completamente destruída e saqueada. Só então comecei a me preocupar de verdade não somente com o hoje, mas também com o amanhã. Retirei de várias bombas o total de sete litros. Foi essa escassez ao longo de boa parte da viagem, pegávamos somente a gasolina que sobrava. Em alguns nem isso havia mais. A viagem até Rio Grande seria longa. Pela distância mostrada no mapa, faríamos um percurso de um pouco mais de dez horas.

Novas informações eram dadas pela rádio a cada minuto. Alguns estavam levando a sério a tal tabela das cores apresentada pelo psicólogo. O combustível acabou quando chegamos em Tubarão. Empurramos o automóvel para o acostamento. Como já estava anoitecendo, preferimos dormir no carro. Era mais seguro.

Por volta das cinco da manhã fomos acordados por alguém batendo na janela com uma lanterna acesa. Acordamos assustados. Percebi se tratar de um soldado, ainda assim fui cautelosa ao abrir a porta do carro.

- Não é seguro parar na estrada. – disse ele.

- Não paramos... É que a gasolina acabou.

- Temos relatos de pessoas mortas por pararem no lugar errado e principalmente na hora errada. Aguarde um minuto. – disse ele.

- Tudo bem.

O soldado se afastou. Estava escuro demais para enxergar qualquer coisa. Voltou um minuto depois com um galão de três litros de gasolina.

- Abasteça e saia o mais rápido daqui.

- Obrigada! – disse eu sorrindo.

Quando saí para abastecer é que percebi o quanto aquele lugar poderia ser mesmo perigoso, não pelo o que eu via, mas pelo breu infindável que não revelava imagem alguma. O ar estava frio, embora fosse verão.

Voltamos a seguir adiante. O silêncio de Daniel me preocupava, no entanto não podia esperar muito de alguém que acabara de perder os pais. Em minutos alcançamos um caminhão do exército, talvez o mesmo que parou para nos ajudar com o combustível. Na carroceria estavam novamente os Deformes. A expressão era tão desoladora e moribunda quanto à de um boia-fria.

- Podemos ultrapassá-los? – pediu Daniel incomodado.

- Está escuro demais. É melhor não.

Tempos depois o caminhão saiu da BR e seguiu por uma estrada de chão batido, sumindo de vista.

Com o dia amanhecendo, o céu oscilava entre o nublado e o lilás. Na rádio, uma vinheta de sax anunciava novas notícias. Falavam sobre testes feitos nos Deformes. Não conseguiram encontrar vírus algum, mas ao mesmo tempo estavam sem respostas sobre o porquê de o fenômeno se propagar ao invés de ser apenas um caso isolado de anomalia. Um grupo de filósofos e teólogos aceitava veemente a tese da tabela das cores. Não obstante, líderes religiosos estavam convocando os fiéis para um novo caça às bruxas. Nenhuma notícia ou relato de que alguém viesse a óbito ou estivesse doente pelo, já não mais vírus e sim fenômeno. Nem sequer mudança de comportamento foi encontrada nos Deformes. Apenas uma pequena presença de medo e estresse foi diagnosticada, porém consideravam irrelevante diante dos fatos. Alguns e-mails foram lidos pelo locutor. Grande parte era sobre a truculência do exército por aprisionar em laboratórios improvisados os Deformes e familiares dos possíveis infectados. Minutos depois o locutor leu a resposta do comandante da missão. Dizia que os familiares dos Deformes seriam soltos, já que não havia risco de contágio por não se tratar de um vírus.

Quilômetros depois a BR estava interditada, próxima ao acesso a Sangão. Um enorme engarrafamento. Todos os que estavam nos carros olhavam apreensivos. Ouviam-se discussões longínquas. Não havia muito que fazer a não ser esperar. Com o tempo as discussões foram substituídas por gritos, alguns resolveram sair do carro para ver. Só quando a situação ficou mais próxima e visível foi que pude entender, um grupo de pessoas estava revistando os carros. Pensei que era à procura de comida ou combustível, mas de repente a motorista do carro à frente saiu correndo e abriu o porta-malas; um Deforme avermelhado, que talvez fosse o marido dela, saiu de dentro e frenético em fuga. Uma parte do grupo continuou a revistar os carros, a outra parte correu com tacos e sarrafos atrás do Deforme. Sua esposa ajoelhada de mãos juntas implorava para que o deixassem ir. O Deforme caiu depois de ter sido alvejado por um taco que foi lançado em suas costas. Ele era arrastado pelos braços, os Outros gritavam vitoriosos. Sua esposa tentava impedi-los se abraçando ao marido, mas um integrante do grupo dos Outros a acertou com um soco na cabeça. Saí do carro para acudi-la e fiquei impressionada pelo fato das pessoas que estavam nos carros próximos, não terem dado a mínima importância para a selvageria que ocorria.

- Para onde estão levando ele? – perguntei à esposa.

- Eu não sei. Por favor, ajude o meu marido. – disse ela caída segurando-me pelo colarinho.

No momento em que me direcionei para intervir ao grupo que o levava, um homem com a expressão de um bárbaro veio de encontro a mim.

- Você leva alguém além do garoto? – perguntou.

- Não.

- Abra o porta-malas.

Eu queria desafiá-lo, eles não tinham o direito de fazer o que estavam fazendo. Mas se algo ocorresse a mim, Daniel ficaria sozinho. Abri o porta-malas, nada além do estepe.

- Para onde vocês estão levando ele? – perguntei.

- Estamos levando todos os Deformes para a fogueira.

- O quê? Vocês estão loucos. – disse postando-me à sua frente.

- Você viu a cor dele? – perguntou - Vermelho. Ele é assassino.

- Isso não dá o direito de vocês agirem dessa forma! – gritei por desespero - Você não sabe o porquê e nem quem ele matou.

- Isso tudo que está acontecendo – disse apontando-me o dedo - é um sinal de Deus. – apontou para o céu - Se a justiça funcionasse, ele estaria na cadeia... E não, livre. Deus se cansou da incompetência humana, agora ele nos deu um sinal. Se acabarmos com todos esses Deformes, teremos apenas uma raça perfeita. Existirão somente homens de bem.

- Eu quero falar com o líder do seu grupo.

- Haha! E você acha que vai convencer o nosso líder do contrário? Se quiser ver o show é só me acompanhar.

Esperei-o se afastar e então pedi para a mulher cuidar de Daniel que eu iria tentar salvar o marido dela. O homem se mostrou surpreso ao ver que eu realmente o seguiria até o líder. Saímos da BR e passamos por um campo de gramas secas, atravessamos uma planície onde pastavam os bovinos. Daniel havia surgido ao meu lado.

- Por que você não ficou no carro? – perguntei.

- Depois que vocês saíram, um pessoal foi ajudar ela. Aí resolvi vir.

Chegamos a um pequeno rancho de madeira podre, no qual demos a volta até nos aproximarmos de um buraco com dez metros de largura e um pouco mais que cinco de profundida. Havia vários Deformes amarrados nas mãos e nos pés. Atrás de mim, os Outros saíam do rancho trazendo mais dois Deformes.

- Onde está o seu líder? – perguntei ao homem que segui.

- Estou aqui. – disse uma voz atrás de mim.

Bem diferente do que imaginei, não havia manto religioso ou qualquer vestimenta que o caracterizasse como alguém a ser seguido. Não passava de um caipira de quase trinta anos usando suspensórios imundos.

- Você não vê que isso é errado? – disse eu apontando para o buraco – O julgamento que você e seu grupo estão fazendo está baseado no que ouviram por aí. Nada além disso.

- É mesmo? Tá vendo aquele senhor no canto direito com um ferimento no braço? – disse apontando para o buraco - É meu pai.

- Meu Deus.

- Quando ele se tornou um Deforme, ajoelhou-se pedindo perdão para a minha irmã. A face está rosada. Sabe o que isso significa, não é? Que ela foi estuprada por ele. Se Deus não tivesse mostrado a verdade, jamais saberíamos que um dia quando ela era criança, ele a violou. Essa realmente é a face da verdade. Todos os pecadores morrerão. Chegou o dia do Apocalipse, e apenas os homens de bem continuarão nesse mundo.

- Por favor! Solte-os. Espere mais um pouco até ter certeza. Se tudo isso for verdade, eles serão julgados.

- A justiça que você conhecia, não existe mais. - disse a mim - Acabem de uma vez com isso! – ordenou ao grupo.

Os Outros jogaram gasolina nos corpos. Os Deformes estavam apavorados, tentavam inutilmente se levantar. Alguns usavam o corpo do próximo como apoio para tentarem sair do buraco. O líder acendeu o fósforo e no momento em que se preparava para arremessar, consegui tirar de sua mão.

- Corre! – gritei para Daniel empurrando-o para frente, mas ele ficou com medo de sair do lugar.

O líder puxou-me pelos cabelos e o enrolou em sua mão. Retirou um revólver preso abaixo do suspensório e o encostou a minha cabeça. Tentei me desprender.

- Veja! – gritou apontando o revólver para o buraco, em seguida o disparo.

Uma enorme fogueira humana. Gritos por toda parte, tanto dos que torciam quanto dos que queimavam. Os Deformes se movimentavam rápidos como se estivessem dançando.

- Não! – caí de joelhos.

Abaixei a cabeça e meu corpo todo foi ao chão. Não restava mais nada que eu pudesse fazer, era o fim para aquelas pessoas e seria também o nosso fim se não fossemos embora logo, no entanto faltava-me força para levantar.

- A gente precisa sair daqui. – disse Daniel me tocando os ombros.

Olhei para ele e assenti, mas Daniel estava olhando para outra direção na qual meus olhos também seguiram. O líder estava apavorado com as mãos cobrindo o rosto. Mãos essas que ondulavam conforme sua face borbulhava, o mesmo acontecia com os outros. Todos do grupo estavam se tornando Deformes e com o tom de pele avermelhado.

- Meu Deus! O que está acontecendo? – perguntou o líder aos céus – Nãaaaaaaaaaaaaaaao!

Levantei-me para sairmos daquele lugar o mais rápido o possível. Nesse período de tempo, dois dos seguidores haviam se jogado na fogueira após se tornarem Deformes. Atravessamos rapidamente a planície e voltamos para a BR. A esposa do Deforme capturado estava caída no chão, uma família a acudia. Entramos no carro e seguimos pelo acostamento, era a única forma que tínhamos para sair logo daquele lugar. Quando chegamos a uma inclinação na estrada, pudemos ver à direita e pouco mais adiante o rancho e o buraco onde estavam os Deformes. O outro grupo que fechara a BR se dirigia em direção aos amigos que haviam sofrido a transformação. Não pude ver com clareza, pois precisava estar atenta à estrada, mas Daniel viu.

- Eles estão batendo nos próprios amigos deformados. – disse ele.

- Vai se tornar um ciclo sem fim.

- O que é ciclo? – perguntou.

- Você vai saber daqui alguns dias.

Daniel me impressionara, permanecia forte e puro mesmo com todas as tragédias que havia presenciado.

- Precisamos abastecer de novo. Já entrou na reserva. – disse eu.

O problema é que não havia mais gasolina por onde parávamos. O carro começou a sacolejar, o combustível havia acabado. Parei no acostamento. Pelos meus cálculos, o mapa indicava que estávamos em Criciúma, ou pelo menos próximos.

- O que a gente vai fazer agora? – perguntou Daniel olhando para os lados.

- Vamos procurar ajuda.

Havia casas mais adiante do acostamento, porém seria perigoso demais bater à procura de ajuda. O que encontrássemos que pudesse nos fazer seguir adiante, já ajudaria. Guardamos o kit no porta-malas. O caminho por onde percorremos não havia destruição, era uma rua de casas simples, no entanto parecia que todos estavam escondidos nos observando. Caminhamos muito mais do que imaginei que fossemos caminhar. As casas, os estabelecimentos, as pessoas, o mundo, simplesmente tudo estava fechado para nós. O silêncio do lugar era um medo arrepiante que sentimos por cerca de quarenta minutos.

- Talvez fosse melhor batermos em alguma casa. – disse Daniel.

- Não. Estão todas fechadas, ninguém vai nos atender.

- Mas a gente vai andar o dia todo.

- Não importa... Acho que estou vendo algo mais à frente. – disse eu.

Estávamos a uma distância de quase dois quilômetros do objeto, que mesmo estático no meio da rua era impossível identificá-lo com clareza, por causa da poeira erguida no horizonte.

- É um carro! – animou-se Daniel.

- É verdade. Espere aqui! Talvez não seja seguro.

Apressei o passo.

- Espera!

- O quê?

- Leve isso. – disse ele jogando-me o canivete suíço.

Quanto mais me aproximava, mais podia ver a silhueta de alguém dentro do carro. Alguns passos depois pude ter certeza, era um Deforme de face esverdeada. Ele estava imóvel, segurei firme o canivete. Aproximei-me da janela do carro e pude constatar uma fina trilha de sangue coagulado entre a têmpora e o queixo. Abri a porta. Provavelmente foi assassinado, pois não havia arma alguma próxima dele. Puxei o corpo do Deforme para fora do carro e o coloquei do outro lado da rua. Entrei no carro, girei a chave que estava na ignição. Ligou de primeira. Era um Monza bem antigo. Segui adiante para buscar Daniel.

- O que foi que aconteceu? – perguntou entrando no automóvel.

- Alguém matou o dono do carro. Ele era um Deforme, o que morreu.

Foi um alívio a segurança de estar dentro de um veículo. Pelo tanque cheio e as várias caixas que havia no banco de trás, provavelmente a vítima estava pronta para deixar a cidade quando foi assassinada. Paramos na entrada para a BR, pegamos o kit que estava no porta-malas do Peugeot e seguimos tranquilamente até Araranguá, onde paramos para descansar num terreno baldio com outras famílias que estavam ali pelo mesmo motivo. Daniel ficou contente por achar um binóculo no porta-luvas do carro.

Acordamos às duas da manhã, bebemos leite em pó e comemos granola. Já estava começando a sentir a falta de uma refeição de verdade, com arroz, feijão e bife. Situações aparentemente banais e que só agora, pela falta, tinham seu devido valor. Liguei o carro para seguirmos em frente.

- Estou com sono. Não dormi muito bem. – disse Daniel.

Passei as caixas que estavam atrás para o banco da frente.

- Agora pode dormir melhor.

Em pouco menos de uma hora chegamos em Torres, já no Rio Grande do Sul. Pela primeira vez desde o dia em que começou tudo isso, a rádio tocou música, além das notícias. Era Perfect Day do Lou Reed. Abri a janela e deixei o vento entrar. Seguimos direto e só paramos para fazer as necessidades básicas, tomarmos um pouco de leite e comermos salsicha enlatada. Sete horas depois, chegamos ao edifício onde mora minha mãe. Um senhor calvo, que aparentava ter um pouco mais de cinquenta anos e fumando um baseado, estava parado na porta do edifício e se dispôs a nos ajudar com as caixas.

- Você é parente da dona Alice do 301?

- Sim. Como foi que o senhor adivinhou?

- Nesse edifício só ficaram duas famílias, a minha e a sua. As pessoas estão fugindo para o norte.

- Ela é minha mãe. – disse eu parando em frente ao elevador.

- Meu nome é Arnoldo.

- O meu é Cristine, o dele é Daniel.

- Ah... O elevador está quebrado. – disse Arnoldo com certa timidez.

Subimos pela escada. Minha mãe ficou surpresa ao me ver, não pensava que eu fosse chegar tão rápido.

Uma semana depois o fenômeno já havia afetado o sul, sudeste e centro-oeste do país. Em Brasília, segundo os noticiários, os três poderes estavam vazios. Os políticos haviam desaparecido por completo. Menos mal, quem precisa deles quando se tem o Apocalipse?

Dois meses depois o continente americano estava completamente afetado. Já não havia mais governo, estava clara a ideia de cada um por si. Agora, era só uma questão de dias para que os principais serviços fossem encerrados, entre eles o principal, a energia elétrica. Bastaram apenas cinco dias para que as rádios parassem com suas transmissões. O pouco que sabíamos era através de um avião de pequeno porte, que sobrevoava com faixas informativas. Minha mãe estava ficando cada vez mais perturbada, passava o dia inteiro trancada no quarto, lendo a bíblia. Eu, Daniel e o seu Arnoldo costumávamos sair pela manhã à procura de alimento, enquanto as duas filhas pequenas dele ficavam sobre os cuidados da minha mãe. As garotinhas estavam se adaptando bem à nova forma de vida, eram um pouco mais novas que Daniel, tinham oito e nove anos. Não íamos de carro para economizar gasolina para o momento em que precisássemos fugir. Passávamos pelo menos duas horas por dia pescando no rio que ficava a cinco quilômetros do apartamento, no entanto não éramos os únicos a fazer isso, e a escassez era cada vez maior. Logo precisaríamos procurar por um lugar melhor.

Numa determinada manhã, deparamo-nos com um vira-lata morto a três quadras do apartamento. Foi uma benção, pois até então as únicas coisas que conseguíamos encontrar tão próximas dali e que servisse como refeição, não passava de insetos graúdos.

- Podemos ficar doentes se comermos ele. – disse Daniel.

- Podemos ficar doentes se não comermos. – disse eu tocando no animal – O corpo ainda está quente, não vai fazer mal.

Enquanto levávamos o cachorro para o apartamento, o avião sobrevoou com uma faixa escrita: Deformes são a maioria.

Nosso almoço costumava ser também a janta. Em uma hora e meia havíamos preparado o alimento do dia. Sentamos à mesa e comemos carne de cachorro, que em tempos de fome era uma iguaria, com caldo de peixe e cenouras.

- Já faz um tempo, mas ouvi falar que se matar um deles, você se torna igual. – disse seu Arnoldo.

- É verdade. – disse Daniel – Nós vimos isso acontecer.

- Então é por isso que eles são a maioria. – disse seu Arnoldo - O que você acha que farão se chegarem aqui? – perguntou-me.

- Muito provavelmente estão matando os Outros, já que é a única forma de os Deformes continuarem vivos. – disse eu.

- Esse fenômeno não é mortal, mas todos matam e morrem por causa dele. Isso não é irônico? – perguntou seu Arnoldo.

- Muito.

- Não seria mais fácil se nos tornássemos iguais à maioria? – perguntou seu Arnoldo insistente - Assim não precisaríamos ficar com medo, se esconder ou fugir. Hoje pela manhã, quando acordei, menti para as minhas filhas, disse que tinham encontrado a cura para o fenômeno. Queria me tornar igual a eles e depois fazer com que elas se tornassem também. Seríamos a maioria, estaríamos aceitos no mundo, mas nada aconteceu. Por quê?

- Talvez o fenômeno não transforme a pessoa em quem ela quer ser, mas sim em quem ela realmente é.

- Então significa que isso não vem daqui, – apontou para a cabeça – e sim daqui – apontou para o coração.

- “De que serve ao homem conquistar o mundo inteiro se perder a alma?”– disse minha mãe citando Marcos, enquanto se levantava para colocar o prato na pia.

Na manhã do dia seguinte, eu, Daniel e seu Arnoldo fomos pescar no rio. Havia outras famílias como de costume. Tínhamos a obrigação de manter o semblante de felicidade de que nada temíamos. Era a única forma de esperança que as crianças tinham do amanhã. Pescávamos tranquilamente quando o som do avião nos alertou para mais uma notícia, esperamos ansiosos por sua aproximação e então avistamos a faixa: Fujam! Eles chegaram.

Seu Arnoldo largou a vara de pescar e correu, outras famílias fizeram o mesmo deixando para trás os peixes. Eu e Daniel nos olhamos sem saber ao certo que decisão tomar. Não podíamos fugir sem ter um estoque de comida.

- Olha! – disse Daniel apontando para os peixes abandonados – Vamos pegar.

- Rápido! – concordei.

Conseguimos duas sacolas cheias de peixes. Percorremos apressados os intermináveis cinco quilômetros. Chegamos ao edifício e subimos as escadas até o apartamento do seu Arnoldo. Batemos à porta, precisávamos avisá-lo para não sair sem nós, pois não havia outro meio de transporte que não fosse o Monza. Mas ele não atendeu. Fomos para o nosso apartamento, entramos, não havia ninguém na cozinha e nem na sala. Minha mãe devia estar no quarto lendo a bíblia, mas senti falta das crianças.

- Droga! Para onde eles foram? – disse eu correndo até a janela.

- Escuta! – disse Daniel - Tem um barulho estranho vindo do quarto da sua mãe.

O som era um rangido de molas.

- Se afasta. – abri devagar a porta. Enquanto a abria via a imagem que se estendia aos poucos. Primeiro a cama se mexendo; lençol, sangue e em seguida... - Mãaaaaaaaaaaaaeee!

Seu Arnoldo e as duas filhas estavam golpeando-a simultaneamente, ele com facadas no tórax e as garotinhas com marteladas na cabeça. O corpo estrebuchava sobre a cama.

- Desculpa, - disse ele parando brevemente com os golpes – mas se não nos tornarmos Deformes, seremos mortos.

- Larga ela! – gritei puxando-a pelos pés para fora da cama.

Seu Arnoldo desferiu um golpe circular para me impedir, acertando-me superficialmente na mão esquerda. Ela estava morta, eu sabia, havia muito sangue ensopando o lençol, mas não podia deixar que continuassem com aquilo.

Gritos vinham de fora da rua. Daniel correu até a janela para pedir ajuda, mas logo voltou ao quarto.

- Cristine, precisamos fugir. Eles estão lá fora, os Deformes.

Seu Arnoldo parou de esfaquear minha mãe e apontou a faca na nossa direção.

- Vocês precisam esfaqueá-la para se tornarem Deformes.

Chorei, olhei para a face irreconhecível de minha mãe. Estava angustiada pelo sentimento de impotência.

- Precisamos fugir. Vamos! – disse Daniel colocando as chaves do carro na minha mão. Caí deslizando pela parede. Não queria acreditar no que estava acontecendo. Daniel se abaixou - Por favor, Cristine. Ela está morta. A gente precisa fugir, não temos mais tempo. Você prometeu me proteger. Nós vamos morrer se não fugirmos agora. - disse Daniel me arrastando para fora do quarto.

Descemos rapidamente pelas escadas. Dois Deformes avermelhados estavam espancando um senhor no meio da rua. Entramos no carro e quando liguei a ignição, o barulho do motor fez com que os dois Deformes se pusessem à frente do veículo.

- Passa por cima! – disse Daniel com ódio.

Se eu fizesse, poderíamos acabar nos transformando neles. Dei à ré e fiz o contorno na rua seguinte. Seguimos adiante em alta velocidade até Cassino, percurso que fizemos em vinte minutos numa viagem que normalmente levaria cerca de quarenta e cinco. Atravessamos os campos litorâneos e paramos próximos à região dos banhados. Um horizonte longo o suficiente para avistarmos qualquer um que tentasse se aproximar.

Embora a emoção seja algo incontrolável, somente ali foi que pude chorar de verdade, sem parar para me preocupar ou pensar em qualquer coisa. Soquei o volante com toda a força que me restava. Por mais quanto tempo conseguiríamos fugir? Mais quantas mortes seriam necessárias para que todo esse pesadelo tivesse fim?

- Ainda temos comida, – disse Daniel erguendo uma da sacola de peixe – mas não tem mais nenhum lugar seguro para irmos. Você precisa descansar. Durma um pouco e amanhã a gente procura um lugar melhor. Deve ter outras pessoas na mesma condição; a gente pode se juntar a eles, se encontrarmos.

- Tudo bem. – disse eu enxugando as lágrimas – Eu vou descansar. Se você vir algo estranho, me acorde.

Daniel pegou o binóculo no porta-luvas e sentou de pernas cruzadas no teto do carro. Fiz um pequeno curativo na mão com um pedaço de pano. Um turbilhão de coisas passava pela minha cabeça, impedindo o sono. Jamais veria minha mãe novamente. Deus, como tudo isso foi acontecer? Por quase uma hora fiquei deitada no banco de trás com os olhos fechados e pensando em uma forma para parar de pensar, até agarrar o sono. Devo ter dormido por cerca de nove horas. Despertei um pouco confusa e com uma tristeza inigualável no coração. Queria voltar a dormir e nunca mais acordar. Daniel estava preparando um peixe na fogueira recém-feita. Era fim de tarde.

- Podemos ir embora pela manhã. As estradas devem estar interditadas com todos fugindo. – disse ele.

- Sim, eu pensei nisso também.

Comemos peixe e bebemos água. Daniel foi dormir no início da noite, fiquei de sentinela. Embora fosse a fogueira o que nos aquecia, tive que apagá-la por uma questão de segurança. O céu nunca esteve tão perfeito, a lua com seu brilho eterno, as estrelas tão unidas que eu quase podia abraçá-las. O universo é perfeito demais para os olhos do ser humano. Por um breve momento esqueci-me de todos os problemas, e mal pude perceber quando emiti um sorriso. Mais despercebido ainda foi quando adormeci de madrugada.

- Cristine, acorda. Acorda, Cristine. – disse Daniel sacudindo-me. Quase caí do teto do carro quando despertei assustada – Você acabou dormindo. São seis horas da manhã. Acho que já podemos voltar para a estrada.

- Certo. Vamos nessa.

Entramos no carro. Não sabia ao certo para onde iríamos, mas seguiríamos sem destino até encontrarmos um lugar seguro onde pudéssemos viver em paz. Recebi um soco na mandíbula ao ligar a ignição. Uma breve sensação vertiginosa e então o som da porta se abrindo. Um Deforme avermelhado me puxou para fora do carro, arremessando-me longe.

- Socorro! – gritou Daniel.

- Eu só quero o carro e a comida. – disse o Deforme olhando para mim e em seguida entrando no carro – Saia! – ordenou para Daniel.

- Vai ter que me matar, filho da puta.

- Cala a boca, seu merda! – disse inclinando-se para desferir um chute que acertou o nariz de Daniel.

A força do golpe foi tanta, que Daniel quebrou o nariz e bateu com a cabeça na janela. Pisou na embreagem e se preparou para mudar de marcha. Corri e consegui puxar o Deforme para fora do carro. Ele se levantou em seguida com os punhos prontos para o combate. O Deforme era muito mais forte do que eu, mas se eu tivesse que morrer, pelo menos lutaria até o fim. Desferi uma direita, ele conseguiu se defender como um boxeador. Avançou no meu pescoço de tal forma que parecia querer arrancá-lo. Muito pior do que a falta de ar, era sentir o pouco que restava ser comprimido. Ver a vida inteira em um segundo, isso é clássico, porém verdadeiro. Forçou meu corpo para baixo. Caí de joelhos e em seguida fui ao chão. Meus olhos queriam saltar, minha cabeça pulsava. Pensei no que seria de Daniel. Espero que ele tenha tido forças para correr o mais longe possível. É incrível como tudo pode mudar em um segundo. Antes do Apocalipse, o que eu mais queria era me formar, jogar sinuca com os meus amigos, viver; agora, respirar era o mais valioso bem que me estava sendo tirado. De repente algo na expressão daquele homem havia mudado. Suas mãos já não me apertavam mais, não via fúria em seu olhar. Começou a se afastar, não havia mesmo razão para querer me matar, era só entrar no carro e ir embora. Eu tossia como um cachorro débil, senti cada movimento de meus pulmões se abrirem. Não há nada melhor do que poder respirar e se sentir vivo. Eu queria que o Deforme entrasse logo no carro e fosse embora. Ele deu alguns passos para trás, cuspiu sangue e caiu duro. Atrás estava Daniel, com sangue escorrendo pelo nariz. O Deforme tinha um canivete cravado nas costas.

- Eu sou um assassino. – disse Daniel olhando para o corpo do Deforme.

- Calma. Você está bem? – perguntei me levantando – Vai ficar tudo bem. – Abracei-o – Eu vou cuidar de você.

- Me larga! Você não entende? Eu sou um assassino. Agora vou ser como eles.

Mesmo com todos os tormentos que passamos ao longo dos meses, aquela era a primeira vez que eu via lágrimas em seus olhos.

- Você não será um Deforme. Seu coração não vai deixar.

- Por que tem que ser assim? Vai embora. Você não precisa de mim. – disse ele correndo em direção ao banhado.

Consegui alcançá-lo. Caímos de joelhos e nos abraçamos fortemente.

- Eu prometi que nunca te deixaria. – disse eu com minhas lágrimas tocando-lhe o rosto.

- Eles não precisam fazer isso com a gente. Por que tem que ser assim? – perguntou.

- Foi sempre assim e sempre será. A única coisa que podemos fazer é lutar pela nossa sobrevivência.

- Mas eles querem nos matar só para serem a maioria. Não estamos fazendo mal a ninguém. Por que não nos deixam viver em paz? – perguntou Daniel.

- A humanidade sempre agiu dessa forma. Se não fosse para ser a maioria, seria por petróleo, terra, religião, ideal político ou qualquer outro motivo que no final fizesse deles a maioria. Olhe para mim, jamais nos entregaremos. Mesmo que eles sejam a força maior. Nenhum sistema que mate por dominação pode sobreviver por muito tempo. No final, só os que têm coração continuarão em pé, pois jamais se rendem. Não deixaremos que acabem com a nossa essência, estaremos sempre juntos, eu e você. Para sempre.