sábado, 25 de fevereiro de 2012

- É.

                                        - É.

 

                                                                Anderson Felix

 

Foi no ano do maior caos aéreo.

Era tarde da noite. Oswaldo, aposentado, senhor de sessenta e dois anos, estava há quase doze horas esperando pelo seu voo. Cansado e com fome, cochilava em um banco ao lado de outros tantos indignados à espera da chamada para o embarque. Foi acordado por alguém que lhe tocou o ombro. Ainda sonolento e com os olhos pesados, olhou para o homem que o acordava. Era um simpático jovem que logo se identificou.

- Olá! Meu nome é Pedro, sou médico. O senhor está indo para Cuiabá, não é mesmo?

- Isso.

- Pode me acompanhar.

Oswaldo levantou-se. Não entendia o que estava acontecendo, mas preferia ir a qualquer outro lugar a ter que ficar mais algumas horas sentado no meio de tempestuosas discussões. Quando se afastaram da movimentação o aposentado apressou o passo e chegando mais próximo do médico perguntou:

- Para onde estamos indo?

- Eu também vou para Cuiabá, então resolvi dar carona para algumas pessoas.

- E quanto vai custar essa carona? É que já paguei pela passagem.

- O senhor não terá que desembolsar nada. – disse Pedro sorrindo enquanto abria a porta de uma sala especial de espera do terminal.

Oswaldo sentou-se ao lado de outras quatro pessoas. Ninguém sabia ao certo o que estava acontecendo, tinham apenas a rápida informação passada pelo jovem.

- Boa noite, senhoras e senhores. – disse o médico – Vou dar uma rápida explicação, pois não temos muito tempo. Vocês cinco estão aqui esperando pelo mesmo voo há quase doze horas. Estou indo para Cuiabá pegar alguns órgãos para transplante. Voarei num Learjet que está no hangar do aeroporto. Portanto, se vocês quiserem uma carona me falem agora, pois preciso decolar imediatamente. Só para adiantar não cobrarei nada de vocês.

Não houve objeção. Entraram no avião. Pedro ficou ao lado do piloto na cabine. Decolaram.

- Ele falou que estava com pressa, – disse o aposentado tentando explicar os três acentos vagos para passageiros – deve ser por isso que não chamou mais pessoas.

Logo que a aeronave conseguiu altitude, o médico saiu da cabine e se sentou ao lado dos passageiros.

- Então, vocês estão voltando pra casa? – perguntou Pedro, sorridente, apertando os joelhos e esperando pela resposta de todos.

- Estou indo defender minha tese de mestrado. – disse Laura, a única mulher do grupo. Uma garota sensual de 26 anos.

- Estou indo ver meu filho. – disse Mauro. Estava com quase 40 anos e separado. Sem emprego há um pouco mais de seis meses.

- Estou indo trabalhar. – falou o jovem Fausto de 19 anos.

- Vou escrever uma matéria. – disse Carlitos, de 34. Trabalhava como jornalista investigativo.

- Eu estou voltando pra casa. – disse Oswaldo com uma expressão cinzenta.

- Muito bem. Prazer em conhecê-los. – falou o médico, que logo voltou para a cabine.

Os cinco passageiros permaneceram em silêncio. O jornalista tentou flertar Laura com os olhos, mas não teve êxito. Ela mexeu os cabelos com a mão esquerda para mostrar a aliança de noivado. O avião balançou e pendeu para a direita por alguns segundos. Pedro foi até os passageiros.

- Apertem os cintos! Vamos fazer um pouso de emergência. – disse voltando para a cabine logo em seguida.

Fausto tentava desajeitadamente colocar o cinto, o garoto parecia assustado. Oswaldo que estava próximo foi quem o ajudou.

A aeronave perdeu velocidade e desceu lentamente. Mauro olhou pela janela na tentativa de se localizar.

- Estou vendo umas luzes mais adiante. Acho que vamos pousar. Tudo vai ficar bem. – disse o desempregado.

Quanto mais o Learjet se aproximava do solo, mais confiante eles estavam de que tudo terminaria bem, pois podiam ver dois filetes de luzes idênticas aos das pistas de aeroporto. Pousaram com segurança. O avião não entrou em nenhum hangar, simplesmente ficou parado na pista.

O médico e o piloto saíram da cabine e foram até os passageiros.

- Tivemos um pequeno problema. – disse o piloto.

- Qual foi o problema? – perguntou Laura.

- Perdemos o contato com a torre.

- Não é melhor colocar a aeronave em outro lugar? Ficar com ela parada na pista pode ser perigoso. – disse a garota.

- Não dá. O avião apagou totalmente depois que pousamos.

- Então temos que sair daqui logo e pedirmos ajuda, camarada. – disse Carlitos.

Todos saíram do Learjet. Mauro percebeu que havia algo estranho enquanto atravessavam a pista e caminhavam até o terminal.

- Espera! Que lugar é esse? – perguntou.

- Bem, isso é um aeroporto, mas não sei em que lugar estamos. - respondeu o piloto – É como eu falei, perdemos o contato.

- Olhem ao redor, não há nenhum outro avião e também não tem nenhum carro. – apontou Mauro para o estacionamento. – Isso é muito estranho.

- Vamos ficar aqui parados discutindo ou vamos procurar por ajuda? – perguntou o jovem Fausto.

Enquanto se decidiam, o aposentado passou pela grama e se aproximou da vidraça do terminal, porém o revestimento escurecido o impossibilitou de ver qualquer coisa.

- É, camarada. O jeito será entrarmos. – disse Carlitos para o senhor.

Foi o que fizeram. A porta automática do terminal se abriu. As luzes estavam acesas, as lojas abertas, a escada rolante funcionando; no entanto não havia ninguém, ninguém além deles.

- Não sei quanto a vocês, mas meu estômago está roncando há muito tempo. – disse Oswaldo apontando para a praça de alimentação que ficava no andar acima.

O grupo ficou parado por um tempo, porém logo o seguiu. Enquanto subiam, Mauro olhou para trás e viu que o piloto estava se afastando.

- Aonde ele está indo? – perguntou para Pedro.

- Vai tentar arrumar o avião.

O aposentado vestiu o avental que encontrou no fast food.

- Podem se sentar todos. Eu já trabalhei como cozinheiro.

- Camarada, como você consegue ficar tão calmo nessa situação? – perguntou o jornalista.

- Quando eu sentia medo meu pai sempre dizia: É melhor ser um defunto de barriga cheia do que um defunto de barriga vazia. – respondeu.

Mauro preferiu não se sentar, estava apreensivo. A todo instante ficou no vão central olhando para a porta de entrada do terminal.

- O piloto está demorando para voltar. – disse para o médico.

- Fica calmo, meu amigo. Ele sabe o que está fazendo.

Minutos se passaram e Oswaldo preparou um hambúrguer para cada um. O grupo não conseguia disfarçar a fome que sentia. Ouviram um grito do lado de fora, parecia ser do piloto. Todos se olharam assustados. Pedro levantou-se rapidamente e sacou uma pistola da cintura.

- Esperam aqui. Vou ver o que está acontecendo.

O médico desceu correndo pela escada rolante e saiu do terminal.

- Tem alguma coisa estranha acontecendo. – disse Carlitos – Não é muito comum um doutor andar armado.

Ouvem novamente um grito e em seguida um disparo. Todos se jogam ao chão, menos Mauro, que corajosamente decide ir ver o que está acontecendo. Desce a escada, vai até a parede de vidro e então percebe que não há nada lá fora além da pista de pouso. O aposentado aparece em seguida.

- O que foi que aconteceu?

- Estamos perdidos. – disse olhando preocupado – O avião não está mais lá.

- É impossível. Ouviríamos se eles tivessem decolado. – disse Oswaldo.

- Vou lá fora.

- Tome cuidado!

Mauro se dirigiu à porta, no momento em que ela se abria, viu um homem encapuzado do lado de fora à sua espera com uma metralhadora em punho. O desempregado arregalou os olhos e se jogou ao chão, fora da linha de alcance. Houve uma rápida rajada de tiros que estilhaçou a porta e as paredes de vidro. O atirador fugiu em seguida.

- Você está bem, meu jovem? – perguntou o aposentado, ajudando Mauro a se levantar.

- Estou bem. O que foi aquilo?

- Não sei, mas vamos sair daqui antes que ele volte.

Os outros não tiveram coragem para descer, olhavam atônitos da beirada do piso. Os dois correram assustados para o andar de cima.

- Vocês estão bem? – perguntou Laura.

- Estamos. – respondeu Mauro – Preciso chamar a polícia. Você tem celular?

- Tenho. Só que está fora de área.

- O meu também. – disse Fausto.

Aos poucos foram descobrindo que não havia rede para comunicação de nenhum celular. Tentaram os telefones públicos que havia no corredor do banheiro. Os aparelhos estavam mudos.

- Esse lugar não é seguro. A gente tem que sair logo daqui. – disse a garota.

- Acho melhor não. Ele ainda pode estar lá fora. – disse o jornalista – É melhor esperarmos até o amanhecer.

Mauro estava assustado com o ocorrido, seu nervosismo era evidente. Decidiram que só andariam em grupo, se um fosse para algum lugar, todos iriam. Percorreram cuidadosamente os corredores do terminal com a finalidade de encontrar algo que os ajudassem. Descartaram as bancas de revistas, o salão de beleza, os restaurantes, os departamentos de roupas e cosméticos; só depois de passarem por quase quinze lojas é que encontraram o que realmente interessava.

- Vejam! Tacos de beisebol. – disse Fausto apontando para uma sala cheia de artigos esportivos.

O garoto se adiantou em entrar, pegou o bastão mais apropriado para seu porte físico e testou como se estivesse rebatendo uma bola. Oswaldo preferiu procurar pelas facas. Mauro conseguiu um binóculos.

- Camaradas, venham ver isso. – disse Carlitos mais ao fundo.

Havia cinco pistolas 9mm em cima do balcão. A expressão do grupo era de surpresa e alívio.

- Agora estaremos mais seguros. – disse Laura esticando o braço para pegar a arma.

- Não! – falou Mauro segurando-lhe o braço – Precisamos raciocinar. Estamos em cinco pessoas e coincidentemente alguém esqueceu cinco pistolas no balcão de uma loja.

- O que você quer dizer com isso? – perguntou a jovem.

- É impossível um aeroporto desse tamanho estar vazio, sem nenhum avião, nenhum passageiro ou funcionário.

- Quando estava fazendo os hambúrgueres, - disse Oswaldo - vi que os perecíveis eram todos da data de hoje, como se estivessem esperando por nós.

- De qualquer forma, se vamos enfrentar alguém, é melhor estarmos armados. – disse a garota pegando a pistola.

Nisso todos concordaram. O grupo saiu então da sala, cada um com uma 9mm na cintura. Foram até a loja de roupas e pegaram o maior número de casacos que conseguiram, não era para o frio, pois o ambiente estava até um pouco quente, mas precisavam dormir e os casacos serviriam para forrar o chão. O grupo voltou à praça de alimentação, estrategicamente era o melhor lugar, pois tinha visão ampla de todos os lados.

- Vamos fazer o seguinte, três dormem agora enquanto dois ficam de vigia. – disse Mauro – Depois, três vigiam enquanto dois dormem. Faremos turnos de três horas, tudo bem? Preciso de alguém para vigiar comigo nas primeiras três horas.

- Eu, camarada! – disse Carlitos.

Os dois desceram até o térreo e ficaram encostados cada um em um pilar de frente para a porta de entrada do terminal.

- Ele deixou um estrago nessa porta, camarada. – disse o jornalista acendendo um cigarro – E por pouco não deixou um estrago em você também.

- Pelo menos você vai ter uma boa matéria para fazer quando sairmos daqui.

- Na verdade eu iria colher informações para o meu primeiro livro. Lembra do caso daquela garotinha que foi estuprada e estrangulada há dois anos?

- Lembro, claro.

- Então, existem fortes evidências de que os autores do crime são filhos de políticos.

- Se fizessem isso com alguém da minha família, eu mataria da pior forma.

Três horas depois Carlitos subiu para acordar os outros para o turno seguinte. Mauro ficou embaixo esperando a chegada dos próximos e só quando eles desceram é que então foi dormir. A noite se seguiu tranquila, nenhuma ameaça, nenhum vulto, absolutamente nada. Pela manhã os três subiram e acordaram Mauro e o jornalista.

- Acho que já podemos ir embora. – disse Laura.

Mauro se dirigiu até a janela de vidro e então voltou para o grupo.

– Vocês já deram uma olhada ao redor? – disse ele – É difícil de acreditar que tenham feito um lugar como esse no meio de toda essa vegetação. Vou à torre de controle, lá deve ter alguma forma de me comunicar com a polícia.

- Eu vou com você. – disse a garota.

- Não. Pode ser perigoso. Só preciso que vocês fiquem próximos das janelas. Terão que me dar cobertura se caso aquele cara aparecer.

- Tome cuidado. – falou Oswaldo.

Mauro tentou disfarçar o medo que sentia, mas sua expressão não conseguia esconder. Desceu a escada e saiu do terminal. Estava tão preocupado que nem percebeu o ar puro da manhã. Fez uma caminhada de quase duzentos metros até a torre. Contornou-a para ter certeza de que não havia ninguém e só então entrou. Minutos se passaram, a tensão era grande.

- Ele está falando com a polícia, é por isso que está demorando. – explicou a jovem.

Algum tempo depois quando a esperança já estava perdida, viram a porta de entrada da torre se abrir.

- Vejam! – disse Fausto – Ele conseguiu.

Mas em vez de Mauro, foi o homem encapuzado quem surgiu. Mirou sua metralhadora para o grupo, no entanto antes que começasse a disparar, Oswaldo e Laura atiraram irascíveis em sua direção. O homem parecia não temê-los, estava tão confiante que não se esquivou dos disparos e se aproximou cada vez mais do grupo. Ele usava colete à prova de balas. A atitude despertou ódio em Fausto e Carlitos que começaram a atirar na direção do lunático.

- Parem! – gritou o aposentado – Precisamos economizar munição.

Nesse momento houve o revide. Uma rajada de tiros estilhaçou as janelas de vidro de onde o grupo estava. Correram para o corredor do banheiro, no momento era o melhor lugar para se esconderem, pois se caso o homem subisse pela escada rolante conseguiriam acertá-lo e ainda poderiam se proteger de qualquer reação. Ficaram escondidos esperando pelo pior por cerca de duas horas até que Oswaldo decidiu sair e ver a situação.

- Tudo limpo! – disse aos outros.

Dirigiram-se ao restaurante e prepararam arroz, frango e batata frita, porém estavam tão aterrorizados que não conseguiram dar uma única garfada sequer. Laura foi à banca pegar cigarros, estava nervosa.

- Será que ele conseguiu se comunicar com a polícia? – perguntou Carlitos para Oswaldo.

- Acho pouco provável. A polícia às vezes demora para chegar, mas já se passou muito tempo.

- A essa hora eu deveria estar defendendo a minha tese de mestrado. – disse a jovem voltando da banca.

- Esses caras vão pagar pelo que estão fazendo, pode ter certeza. – comentou Fausto tentando consolá-la.

- Não vou ficar mais uma noite. – disse a garota.

Horas depois, já à noite, Fausto viu o encapuzado sair da torre e avisou aos outros.

- Vamos nos preparar. – disse o jornalista – Está na hora de acabarmos com isso.

Laura e Oswaldo ficaram no térreo, escondidos atrás dos pilares próximos à porta, enquanto que Carlitos e Fausto permaneceram vigiando no andar de cima. O lunático se aproximava cada vez mais do terminal, seus passos eram silenciosos, mas seguidos pelos olhos do jovem, que dava as coordenados ao jornalista, que por sua vez passava para a dupla abaixo. O encapuzado passou em frente à porta, porém não entrou seguiu para o outro lado do terminal, próximo à pista. A jovem olhou para Oswaldo sem entender o que estava acontecendo. Da posição em que se encontravam, já não podiam mais avistá-lo. De repente um click, a energia elétrica fora desligada.

- Ele vai nos matar. – disse a garota chorando – Temos que fugir.

- Agora não, garota. – pediu o aposentado.

Mas Laura não deu ouvidos, correu para a porta automática, que não se abriu, no entanto como já estava com os vidros estilhaçados, a jovem não teve dificuldades para sair do terminal. Oswaldo fez o sinal da cruz, porém permaneceu no mesmo lugar. A escuridão era total. Ninguém podia ver absolutamente nada. Minutos de aflição e corações disparados. Ouviram mais adiante o som das rajadas. Nenhum dos três restantes conseguiu se mover, estavam amedrontados. Qualquer tropeço ou barulho que fizessem na escuridão poderia significar o fim. Só quando o dia começou a amanhecer é que o aposentado saiu de trás do pilar e subiu para o andar de cima. Não conseguiu pronunciar uma única palavra com os demais, estava exausto e sem esperanças. Tudo o que fez foi se deitar no colchão improvisado e dormir.

Fausto preferiu não comentar, mas desde que o dia amanhecera, havia identificado uma poça de sangue próxima à porta de entrada da torre. Enquanto Oswaldo dormia, a dupla fez uma ronda pelo interior do terminal, só que nada do que encontravam tinha alguma utilidade. Não havia nenhuma saída estratégica, estavam todos pela sorte, até que ouviram um barulho de veículo se aproximando. O jovem correu para a janela.

- Acorda o Oswaldo. – disse para o jornalista – Nós vamos sair daqui.

- Como assim?

- A polícia chegou.

Carlitos o acordou e os dois foram até a janela. Esperavam por uma viatura, mas era apenas um policial em uma moto. Ainda assim foi um facho de esperança. Parou no estacionamento e caminhou próximo à torre, ao ver o sangue no chão, puxou o rádio comunicador do bolso. Os três queriam chamá-lo, só que estavam com medo de que isso pudesse atrair o lunático.

- Temos que esperar ele nos ver e aí fazemos algum gesto para ele vir aqui. – disse Oswaldo.

- E se ele não nos ver? – perguntou Fausto.

- Aí sim a gente chama ele.

O policial havia dito algumas palavras pelo rádio, talvez estivesse chamando reforços. Sacou o revólver e tentou abrir a porta da torre. Ela estava trancada. Olhou ao redor, porém não viu o trio. Caminhou em direção ao terminal.

- Ele está vindo. Não acredito que vamos sair daqui.

Mas o policial caiu depois de ser alvejado por tiros de metralhadora, dados pelo encapuzado que estava no alto da torre.

- Não! Maldito! Pra mim já chega. – gritou Carlitos - Vou pegar a moto e procurar ajuda.

- Vá rápido ele já está descendo. – disse Oswaldo - Vamos te dar cobertura.

O jornalista desceu as escadas tão rápido que praticamente pulava os degraus. A tensão era enorme. Talvez fosse a última chance que tinham de acabar com o inferno em que estavam passando. Fausto chorava e tremia apontando a pistola em direção à torre.

- Tudo vai terminar bem, filho. Vamos acabar com esse merda. – disse o aposentado tentando consolá-lo.

Carlitos pegou as chaves no bolso do corpo do policial, correu até a moto e ligou-a. A porta de entrada da torre se abriu, no entanto antes que o lunático pudesse surgir, Fausto disparou três tiros. O ato fez com que o jornalista tivesse tempo suficiente para fugir, deixando para trás apenas a poeira de chão batido.

- Conseguimos. Esse verme vai pagar pelo que fez. Agora é só esperar. – disse Oswaldo comemorando.

- Se abaixa! – gritou o jovem ao ver o encapuzado no alto da torre, apontando a metralhadora para a dupla.

Uma longa rajada de tiros foi disparada contra os dois, que esperaram o momento em que o lunático trocava o pente e então decidiram correr para o banheiro.

- Estou sem munição. – disse Fausto.

- Tenho uma bala na agulha e uma no pente. – disse conferindo – Agora, só nos resta esperar.

Oswaldo acendeu um cigarro e ofereceu outro ao jovem, que aceitou. De repente uma paz pairou no ambiente. Tudo se tornou tranquilo. Estavam cada um em um canto da parede do corredor do banheiro.

- O senhor estava voltando pra casa?

- Isso. Fui enterrar minha filha mais velha. – disse o aposentado - Ela morreu de câncer. Agora só tenho a mais nova que mora comigo. Ela dever ter a sua idade. E você, qual era o trabalho que iria conseguir?

- Nenhum. – disse sorrindo – Na verdade, eu estava indo me encontrar com uma garota que conheci na internet.

- E quando vocês iriam se encontrar?

Fausto consultou o relógio

- Daqui a duas horas. – disse o jovem.

- Vai dar tudo certo.

- Não sei. Quando eu sair daqui, tudo o que vou querer será uma cama.

- Você está ouvindo isso? – perguntou Oswaldo.

- O quê?

Novamente era o barulho de veículo. Dessa vez era um som mais pesado.

- Levanta. Acho que eles chegaram.

Caminharam cuidadosamente até a janela e se abraçam vitoriosos ao verem a viatura blindada da Polícia Militar estacionando próximo à torre.

- Filho, eu esperava bem menos.

- Eu também. Vamos descer.

- Não. É melhor aguardarmos eles pegarem aquele merda.

Dois policiais fortemente armados saíram da parte lateral do blindado, outros dois saíram pela enorme porta de trás, onde Oswaldo e Fausto não tinham visibilidade. Imediatamente três deles, taticamente posicionados, entraram na torre. O policial que estava do lado de fora viu a dupla e fez um gesto para que saíssem do terminal.

- Temos que ir. – insistiu o jovem - Essa é a hora. Agora vai ficar tudo bem.

- Não! – disse o aposentado segurando-lhe o braço – É melhor esperarmos.

- Desculpa, mas não vou ficar nem mais um minuto.

Fausto puxou o braço e desceu as escadas. Oswaldo estava apreensivo e observava o jovem. O policial levou Fausto até o carro onde o jovem entrou pela porta de trás. Antes que o policial pudesse fechá-la, tiros de metralhadora foram dados de dentro da torre. O lunático saiu rapidamente pela porta e acertou o policial que estava do lado de fora.

- Não! – gritou o aposentado.

O encapuzado caminhou para a parte de trás do blindado, onde estava o jovem Fausto. Oswaldo desceu apressadamente as escadas e saiu do terminal. Correu em direção ao assassino, só que antes que pudesse tê-lo em sua mira, o lunático descarregou o pente contra o jovem. Enquanto recarregava não percebeu a aproximação de Oswaldo, que acertou dois tiros em seu peito. O encapuzado caiu. O aposentado ainda tentou disparar mais, porém não havia munição. Não queria, mas precisa ir até a parte de trás do carro para saber em que estado se encontrava Fausto. Nunca demorou tanto para dar um passo quanto nesse momento. Queria chorar, no entanto não conseguia. Puxou a porta do carro que estava entreaberta.

- Parabéns! – gritaram em uníssono Mauro, Laura, Carlitos, o médico Pedro, o piloto e o jovem Fausto, que ainda estava sem entender ao certo a situação.

Oswaldo deu dois passos para trás, se desequilibrou e caiu. Pedro segurava um microfone, e o piloto filmava a reação do aposentado, enquanto que os outros quatro seguravam em conjunto um enorme cheque na quantia de um milhão de reais. O lunático se levantou, assim como o policial que havia sido metralhado. Os outros três policiais que estavam na torre, agora se juntavam ao grupo. Todos aplaudiam.

- Como o senhor se sente sendo agora o novo herói do Brasil e o primeiro vencedor de Até o Fim, o nosso novo reality show? – perguntou Pedro se abaixando e aproximando o microfone para Oswaldo.

- Ai, meu Deus, ele não está bem. – desesperou-se Laura.

A programação ao vivo foi interrompida, dando lugar para os comerciais. O aposentado não suportou o susto e sofreu um ataque fulminante do coração.

- Vocês vão pagar pelo que fizeram. Ninguém assinou contrato nenhum para participar disso. – disse Mauro apontando o dedo para a câmera.

Os atores que interpretaram os policiais foram os que tentaram reanimar Oswaldo, mas não tiveram sucesso. Pedro foi até o piloto, puxou-o para um canto mais afastado, tocou-lhe o ombro e disse:

– Você não acha que o encapuzado exagerou na interpretação?

- Por que tá me perguntando isso?

- Sabe como essas coisas funcionam, não é?

- Sim.

- Então, alguém vai ter que levar a culpa.

A 127 quilômetros dali, o casal de aposentados, seu José e dona Valquíria, esperavam ansiosos pelo fim dos comercias.

- O que tá achando desse novo programa, pai?

- Até que é bonzinho. Pelo menos é melhor que aquele que eles tinham antes, que era só putaria embaixo do cobertor.

- É, esse é mais bem bolado. Mais emocionante, né?

- É.

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